FOTO: WARNER BROS.

Por: Bruno Carvalho

Crítica | Oito Mulheres e Um Segredo

Há um fascínio inerente no subgênero de filmes de roubo no cinema, que leva o espectador em um exercício fantasioso e quase sempre prazeroso de ver anti-heróis cometendo grandes assaltos, especialmente quando protagonizados por “populares” como nós. Isso fez da franquia Onze Homens e Um Segredo de Steven Soderbergh (The Knick) um grande sucesso dos cinemas (resgatando também a aura de seu original da década de 1960 estrelada pelo Rat Pack liderado por Frank Sinatra) e que recentemente dominou a TV com a série La Casa de Papel.

Quando as “vítimas” são grandes instituições milionárias como cassinos ou grandes joalherias com seus multimilionários seguros ou resseguros, a diversão é ainda maior. Pegando carona neste filão, Gary Ross (Jogos Vorazes) trouxe um elenco feminino de primeira neste divertido, porém rapidamente esquecível Oito Mulheres e Um Segredo.

O longa é liderado por Debbie Ocean (Sandra Bullock), irmã do ladrão Danny Ocean vivido por George Clooney na franquia “semi-original”, colocando este exemplar no mesmo universo das versões de Soderbergh e, inclusive, utilizando a mesma estilização. Ao sair da cadeia, Debbie recruta, de forma direta ou indireta, outras sete mulheres para assaltarem o tradicional baile Met e levar um valioso colar da Cartier avaliado em 150 milhões de dólares.

Juntam-se a ela curiosas figuras interpretadas pelas ótimas Cate Blanchett (a ladra Lou), Sarah Paulson (a receptadora e dona de casa Tammy), Rihanna (a hacker Bola Nove), Mindy Kaling (a designer de joias Amita), Awkwafia (a batedora de carteiras Constance) e Helena Bonham Carter (a endividada estilista Rose Weil). Juntas elas participam do plano de Debbie para roubar o colar do pescoço de Anne Hattaway (a atriz Daphne Kluger).

Mencionei as atrizes antes das personagens por uma única razão: se este fosse um filme estrelado por “desconhecidas” e não rostos tão proeminentes, Oito Mulheres e Um Segredo passaria completamente desapercebido dos holofotes, tal qual aconteceria com as insossas sequências de Onze Homens de 2001 se não fossem estreladas por Clooney, Pitt, Roberts etc.

Inquestionavelmente ágil, o filme infelizmente peca pelo seu roteiro que jamais consegue dar um tom de urgência às situações narradas, seja pré, durante e pós o roubo. Isso porque tudo é muito “fácil” e sem maiores desafios, algo essencial para que longas desse subgênero funcionam. Um exemplo pontual disso é o entrave apresentado pelo dispositivo de segurança do colar que não fora previsto por Debbie e, em vez de usar alguma sacada genial para subverter a dificuldade (algo que os originais faziam com mais destreza), o texto saca uma solução simplória demais e muito antes de gerar qualquer tipo de tensão para as personagens superarem.

Outro grande problema é a constante necessidade que Oito Mulheres e Um Segredo tem de mencionar Danny Ocean e indicar que, mesmo dado como morto, ele provavelmente está vivo, para que essa história jamais seja retomada, causando enorme frustração. Não que seu retorno fosse essencial para o sucesso dessa “continuação”, mas era desnecessário então sugerir que ele inevitavelmente iria aparecer (e nunca aparece).

Numa franquia marcada por reviravoltas mirabolantes, este possui um desfecho anticlimático e sem lógica, fazendo com que as viradas de roteiro soem inverossímeis e forçadas, apenas para que existam. Felizmente, Oito Mulheres se destaca e balanceia o saldo justamente pela qualidade das intérpretes e as sempre hilárias interações entre elas, que acabam rendendo os melhores momentos do filme. Um elenco desse certamente merecia, contudo, um roteiro mais coerente e que não desafiasse tanto a inteligência de seu espectador.

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