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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Netflix acerta em cheio com Samantha!, sua primeira sitcom brasileira

Samantha! (ênfase no tha!) é uma agradável surpresa que entrará nesta sexta, 6 de julho, no catálogo mundial da Netflix. A produção da Los Bragas de Felipe e Alice Braga é uma comédia que faz um passeio completo e nostálgico pela culturalmente rica e agitada década de 80 da TV brasileira, com uma infinidade de referências diretas, indiretas e vários easter eggs do que foi crescer nessa época.

Samantha, vivida com uma intensidade apaixonante por Emmanuele Araújo (A Lei do Amor), é uma ex-estrela mirim da TV aberta que até hoje vive em função do resquício de sucesso que teve quando criança. Obstinada a voltar ao estrelato de todas as maneiras possíveis, ela vê a oportunidade de brilhar quando os holofotes da mídia retornam à sua vida graças a libertação de seu ex-marido e ex-jogador de futebol Dodói (Douglas Silva, de Cidade de Deus) da prisão.

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O texto é bem construído, ágil, e percorre com fluidez situações que são essencialmente inverossímeis, mas que funcionam no universo retratado e no tom que as personagens empregam. Um dos grandes destaques da atração é Marcinho, o “empresário” totalmente inescrupuloso da estrela, interpretado pelo mestre Daniel Furlan (Choque de Cultura), e que evidencia que a ideia da série é ser completamente descompromissada e desconectada com a realidade, tal qual a sua protagonista.

Samantha é tão presa aos anos 80 que seus momentos mais inspirados ocorrem quando seus conceitos se chocam com os do mundo atual, especialmente no quesito “fama” e “sucesso”. Isso fica claro quando ela conhece a personagem Laila (Lorena Comparato, ótima), uma ~digital influencer~ que tem milhares de fãs sem nunca ter aparecido na TV: “Antigamente o fã precisava comprar papel de carta, escrever à mão, ir ao correio, postar e esperar eu ler no ar. No seu caso é só tocar na tela pra dar o like (…) Uma carta naquela época vale uns 200.000 likes de hoje”, processa a ex-estrela ao ser confrontada pelas novas mídias.

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Mas enquanto Emmanuele Araújo constrói uma personagem complexa e Douglas Silva é sempre convincente como o jogador “malandro”  e boêmio, o mesmo não pode ser dito do elenco infantil que completa o núcleo familiar de Samantha! Claramente o calcanhar de Aquiles da produção, as crianças da série prejudicam o bom ritmo cômico sempre que entram em tela, seja pelo texto enunciado demais, seja por sempre estarem envolvidas em tramas paralelas bobas e que nada acrescentam à comédia (uma num parquinho é irritante). Melhores que os filhos são os intérpretes dos Plimplons mirins, mas ainda assim jogam a série pra baixo, o que denota falta de uma preparação de elenco infantil melhor.

Tirando isso, Samantha! é uma comédia que é eficiente justamente por juntar toda aquela aura dos anos 80 numa mistura que faz sentido tanto pra quem conviveu com aquele universo, quanto pra quem o conhece apenas dos vídeos toscos do YouTube. Está tudo lá, desde a Turma do Balão Mágico e Simony, que obviamente inspiraram a história principal, mas também Xuxa, Mara, Angélica e a rivalidade velada entre elas, Bozo, Fofão, Fábio Júnior e toda aquela cafonice alucinante das ondas VHF comunais que só era possível num mundo antes das opções da TV paga ou da individualidade de consumo de conteúdo trazida pela Internet.

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Esteticamente é uma sitcom de câmera única que adota uma estética novelesca (e aqui não sei se proposital ou não para fazer uma referência a esse formato), com planos e contra-planos fechados que funcionariam melhor no 4:3. Ainda assim, Samantha! entretém pelo absurdo (o mascote Cigarrinho era algo que seria plenamente normal naquela década) e se beneficia de ter poucos episódios (são apenas sete) e com alguns bons cliffhangers que fazem a gente devorar tudo de uma vez, mesmo tendo que fazer algumas concessões para certas escolhas e situações (como a do episódio do reality-show, o do comercial de cerveja e outros mais).

Leve, divertida e amalucada, Samantha! é um acerto da Netflix, que começa com o pé direito no gênero da comédia no Brasil. Ah, e boa sorte ao tentar tirar aquela música dos Plimplons da cabeça. Assisti a série há 4 semanas e ela continua aqui rotacionando sem parar como um vinil quebrado.


 

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