FOTO: HBO

Por: Bruno Carvalho

Sharp Objects: uma boa minissérie que poderia ter sido um ótimo filme

[contém spoilers] Uma adaptação literária para outro meio precisa funcionar de forma independente de seu material de origem, do contrário alienará grande parte de seu público. Esse parece ter sido o caso de Sharp Objects, minissérie da HBO que encerrou sua jornada de oito episódios neste domingo. Com um bom começo, a produção criada por Marti Noxon (UnREALDietland) e dirigida por Jean-Marc Valée (Big Little Lies) foi basicamente um grande filler entre seu intenso início e seu final sem grandes surpresas, todas já reveladas pelo episódio anterior ou vastamente antecipadas até por quem nunca teve contato com o best-seller de Gillian Flynn.

Também não trouxe grande desenvolvimento para diversas das personagens que apresentou em tela e deixou várias pontas soltas, além de um final anticlimático, corrido e abrupto (com direito apenas a uma cena extra durante os créditos que indicou como poderia ter focado mais no horror). Camille (Amy Adams) percorreu os capítulos tendo flashes de sua infância e adolescência na cidade de Wind Gap enquanto investigava os crimes horrendos que aconteceram lá, mas pouco ou quase nada foi discutido sobre as circunstâncias em que tudo ocorreu ou quais as motivações diretas para os atos (as indiretas sabemos, claro).

FOTO: HBO

Em todos os episódios do “meio”, a narrativa ficou estagnada mesmas situações: a hostilidade de Adora com Camille e a superproteção à caçula Amma, a negligência do marido com as atitudes da matriarca (e das garotas), os policiais dando voltas e voltas numa investigação que, como a série, não saía do lugar (embora não imagino como um crime desses não deixou nenhum tipo de rastro óbvio que levaria a sua autora) e demais personagens apenas fazendo figuração de luxo, como o caso de Elizabeth Perkins (Weeds).

Se tivesse sido executada em forma de um telefilme ou uma minissérie mais curta, Sharp Objects teria sido uma produção muito mais bem-sucedida em termos de ritmo e relevância das revelações que preparou com dicas muito sutis diluídas entre horas de idas e vindas de Camille no bar e “entrevistas” com o irmão e pai da vítima (algo colocado apenas para distrair). O mesmo foi feito com o fato de Adora ter a síndrome de Muchausen por transferência (quando uma mãe mantém o filho deliberadamente doente), o que foi segurado até o fim, seguido da rápida e óbvia revelação de quem efetivamente cometeu os crimes na cidade.

FOTO: HBO

Em termos técnicos a minissérie foi irrepreensível, da fotografia dessaturada à montagem sempre eficiente com recortes, até a trilha e o excelente trabalho de maquiagem, mas deslizou em questões narrativas, oscilando entre capítulos tensos (o primeiro, o quinto e os dois últimos) e outros completamente arrastados. Não é possível dizer que foi uma produção ruim, mas longe de ser ótima ou excelente como o padrão HBO que já nos acostumamos. Foi uma minissérie boa, apenas, e que deixou para colocar todas as suas cartas na mesa somente em sua reta final, o que, no mínimo, denota falta de planejamento de seus roteiristas.

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