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Por: André Costa

American Vandal continua brilhante e genial na 2ª temporada

Lançada em setembro de 2017, a primeira temporada de American Vandal chegou de forma meio tímida. Sem gerar muito buzz nem provocar frenesi em fãs - sabe, esses que veem a internet como uma forma de usar GIFs enquanto hipérboles para falar de suas séries favoritas - , a produção chegou de canto e sentou no seu lugar nesse grande espelho de classe que é o catálogo da Netflix.

Acontece que American Vandal é uma pérola. Utilizando de forma brilhante o mockumentary (cuja tradução não é, mas deveria ser, documentosco), a 1ª temporada conseguiu tirar sarro de obras como Making a Murderer e The Jinx sem precisar fazer referências diretas a produções específicas, ou seja, mais emulando a linguagem/abordagem/atmosfera do que recriando sequências com alguma reviravolta engraçadinha (uma maldição que assola e desmembra os filmes da franquia Todo Mundo em Pânico). Como acompanhamento, serviu porções de reflexões sobre justiça, inocência, amizade e o próprio formato do documentário.

Tal qual pode acontecer com o irmão do meio, a 2ª temporada, que chegou no dia 14/09 ao dispositivo com acesso à internet mais próximo de você, corria o risco de ruir diante da responsabilidade de manter o nível do que veio antes. Porém, louvados sejam os deuses da sátira, American Vandal resplandece novamente, aponta suas câmeras para o lado certo novamente, e o faz com tanta destreza que talvez até eleve a barra para todas as continuações de outras produções que virão por aí - sejam elas filmes, séries, ou, vá lá, irmãos.

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A proposta continua a mesma: um crime ridículo em um colégio, um suspeito aceito como culpado por todos e dois paladinos buscando descobrir a verdade através da magia da abertura de câmera. Sim, é uma fórmula repetida, mas eu repito o strogonoff da minha mãe por dias a fio e ele continua sempre bom, então não vamos sair julgando.

Partindo daquele princípio que a sequência precisa ser maior, mais sangrenta, mais exagerada, essa temporada apostou em um vandalismo regurgitantemente mais gráfico e violento do que a primeira. É uma decisão que pega uma anilha de dez quilos e pendura na série, conferindo ao crime um peso que nada tem de bobinho ou travesso. Como mistério, funciona: a situação é tão surreal, as possibilidades são tão vastas (suspeitos, cenários, formas de chegar e sair da cena do crime, motivações etc), que a série consegue facilmente manter o espectador com o nariz colado à tela para acompanhar os desdobramentos.

Como humor funciona também, mas no início tem que pegar no tranco. Ao contrário dos pênis nos carros, não é um absurdo que o crime da vez seja investigado de forma séria. A abordagem tão brilhantemente utilizada na primeira temporada segue a todo vapor: colocar personagens e linguagem direcionando uma enchente de intensidade para uma situação ridiculamente ridícula. A dificuldade inicial, aqui, é se desprender da agressividade da brincadeira, pois, para manter o tom, a situação toda é fotografada com uma atmosfera séria, pesada. Os primeiros desvios de humor são reconhecíveis, porém ainda não existe um clima de sátira estabelecido.

Felizmente algumas doses de contextualização colocam tudo no lugar. Ao longo dos episódios, American Vandal presenteia o espectador com uma seriedade espetacular em frases como “você se cagou de propósito, então?” e “ele não tem o bug no iPhone“, onde tanto a câmera acusadora quanto a mise-en-scène dramática se unem para realçar a demência dos acontecimentos. É um recurso que jamais soa cansativo, pois a série consegue expandir a investigação para adicionar novos elementos (como a reconstituição em 3D dos professores vomitando ou a empreitada até um beco específico), e a montagem ágil confere um senso de urgência que passa mais uma demão de tinta burlesca na situação sendo apresentada.

Melhor ainda: o humor afiado é, assim como aconteceu na temporada anterior, acompanhado de um mistério acachapante. O que parece só uma brincadeira cresce vertiginosamente até envolver o espectador, que começa a enxergar pistas em tudo e até mesmo um simples convite para uma festa pode contar a chave para descobrir quem de fato matou Kennedy. American Vandal não poupa esforços nessa agathachristiezação do pior pesadelo de um zelador, construindo bases sólidas para as reviravoltas, temperando a trama com segredos importantes que nem sempre fazem parte do quebra-cabeças do crime, deixando pouquíssimo espaço para o suspeito da vez se livrar das suspeitas e jamais enganando o público. Não há soluções mirabolantes de última hora. A série se compromete com o andamento da história e consegue mudar os rumos dela sem apelar para saídas fáceis ou que deixam as pessoas franzindo os olhos no sinal universal de “que merda foi essa?”.

É algo dificílimo de alcançar, isso de encaixar e apresentar pequenas peças na hora certa, e a forma orgânica com que American Vandal se desenrola - mesmo com tanta informação precisando ser exposta em momentos específicos para funcionar - mostra que, ao contrário do que acontece com a maioria das coisas e a maioria das pessoas na maior parte dos lugares do mundo, a série sabe o que está fazendo.

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A trama se torna mais envolvente ainda graças à galeria de personagens, que foge de estereótipos como a DC/Warner foge de roteiros bons. Com um elenco que chega a suar talento (é incrível como Kevin e DeMarcus, para ficar em dois exemplos, se tornam tridimensionais diante de olhares e inflexões que traem sua imagem autoconfiante), a série nos apresenta a pessoas tão diferentes quanto interessantes, sem que qualquer uma delas cruze a linha do absurdo. Não há o vilão, o mocinho, o esperto, o alívio cômico. Em American Vandal, todos estão crescendo e aprendendo a lidar com a inevitável avalanche de situações que a vida proporciona - e a atenção da série aos pequenos detalhes faz uma diferença colossal (por exemplo, o zelador gato falando que agradece as pessoas por vomitarem na pia para facilitar o trabalho dele, embora isso só piore as coisas na hora da limpeza, é um insight divertido que abre um pouco o mundo para entendermos como aquela mente e aquela pessoa funcionam).

E esse é, no final das contas, um dos grandes trunfos da temporada. Por trás de toda a situação bizarra, de todas as reviravoltas e resíduos de almoços despejados no chão, há um componente extremamente humano. Ser querido, ser aceito, ser parte de um grupo ou uma comunidade. Mas American Vandal não faz isso com monólogos lacrimejantes e trilha piegas; faz com decisões e confissões, desabafos receosos que, em vez de tentarem provocar o choro no espectador, revelam uma faceta a mais das personagens.

É uma abordagem sensível até onde a vista alcança, e uma que eleva ainda mais a série, pois a partir dela o espectador se conecta mais com todos que passam pela câmera dos protagonistas. E quando um simples beijo entre dois adolescentes faz o público repensar o mistério, voltar a pistas anteriores, questionar depoimentos e se preocupar com o destino de outros personagens, é porque já estamos envolvidos até os intestinos.


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