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Por: Bruno Carvalho

Maniac: o brilho fosco de uma narrativa sem ambição

Depois de mais de uma década cobrindo TV, já não crio mais expectativas em torno de projetos que são colocados no ar, mesmo quando nomes expressivos estão envolvidos em sua produção, como é o caso de Maniac. A minissérie da Netflix tem roteiros de Patrick Sommerville (The Leftovers), produção e direção de Cary Joji Fukunaga (True Detective) e é estrelada por Emma Stone (La La Land), Jonah Hill (Anjos da Lei), Justin Theroux (The Leftovers) e Sally Field (Brothers & Sisters) e um ótimo elenco de apoio. Além disso, é uma minissérie que não pode ser imediatamente classificada, oscilando entre o drama, a comédia, a ficção científica e até a fantasia, o que imediatamente a coloca em um patamar distinto.

Tem também referências óbvias às obras de Stanley Kubrick e Quentin Tarantino (no visual), Charlie Kauffman (na temática), Wes Anderson (na fotografia), com fortes toques que vão desde Blade Runner2001Brilho Eterno de Uma Mente Sem LembrançasLegion até a Matrix. É um patamar alto que seus realizadores a colocam desde o primeiro frame.

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1º ato: O Que é Real?

Maniac tem início estabelecendo-se em um universo curiosíssimo: uma espécie de futuro-retrô em que aparentemente a Internet não existe (ou não se desenvolveu como a nossa) e, por conta disso, soluções analógicas substituem diversas “funcionalidades” e “serviços” digitais do mundo moderno, como a publicidade online, aplicativos de namoro, transporte e por aí vai. Na Nova York oitentista a atração nos apresenta a dois personagens que vivem acometidos por variações de um mesmo mal, a depressão, ampliada pela perda (no caso de Annie) e a inadequação social (no caso de Owen).

Inadvertidamente por conta de intempéries do mundo “moderno”, seus caminhos acabam levando-os para a NPB, uma organização farmacêutica aparentemente de origem oriental que conduz testes laboratoriais em cobaias, e lá eles se submetem a experimentos em troca de compensação financeira (e quem sabe a cura para seus problemas). Os Drs. Azumi Fujita (Sonoya Mizuno, La La Land), Muramoto (Rome Kanda, Ray Donovan) e James Mantleray (Theroux) estudam um novo tipo de soliução capaz de curar o “mal do milênio” através de pílulas que substituiriam a necessidade de se fazer terapia.

A produção também deixa bem sugestionado que nem tudo o que estamos vendo é ou parece ser real, muito por conta dos delírios de Owen e, principalmente, da natureza quase teatral da organização. Submetidos a testes, Owen e Annie são transportados para suas próprias mentes de forma a analisarem e confrontarem seus maiores medos e traumas neste experimento neural.

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2º Ato: Análise

Ao longo das últimas décadas, as narrativas cinematográficas e televisivas têm ficado cada vez mais sofisticadas, acompanhando a maturidade do público. Maniac, assim, se apresenta como uma produção complexa – mas não confusa – onde a linearidade dos fatos e situações narradas é suspensa e sua trama passa a se desenrolar em um plano subjetivo, representado pela “mente” do casal de protagonistas ativada pelo supercomputador GRTA, uma inteligência artificial criada pelos cientistas da NBP para auxiliar no estudo e aprovação da nova droga pelas entidades regulamentadoras.

E aí que o que Maniac sugestionou no 1º ato começa a se desenrolar de forma inusitada: as incursões na realidade compartilhada facilitada pelo computador que mostram que Owen e Annie possuem uma conexão e, juntos, vivem situações elegantemente projetadas e que permitem que a série viaje por épocas e estilos diferentes enquanto os sujeitos estão submetidos a esta “análise” ou espécie de “terapia neural”.

Com isso, a minissérie percorre caminhos que costuram as experiências pregressas de Owen e Annie em “mini-episódios” que servem tanto para o entretenimento puro, quanto para avançar no desenvolvimento dos personagens. É algo que talvez confundiria o público de décadas atrás, mas hoje é perfeitamente inteligível (ao contrário do que vemos em Legion, por exemplo). O roteiro propositalmente não quer que tenhamos conhecimento de tudo que está acontecendo, mas conseguimos interpretar aquilo que ele escolheu revelar nesses “capítulos” do 2º ato. Algo grande está para ser revelado.

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3º Ato: Expectativa x Realidade

Chegando em dois terços de desenrolar de sua história, Maniac jogou as expectativas do público lá em cima com sua narrativa complexa e que, a todo tempo, indica que o que estamos vendo não é necessariamente literal. Sabemos, como o próprio Owen diz, que existe algo “maior” por trás daquilo tudo e que o que acontece não é uma coincidência do destino. Assim, o interessante texto de Sommerville e a direção primorosa de Fukunaga fazem com que alguma revelação ou reviravolta seja iminente.

Infelizmente, é algo que nunca vem.

O 3º ato de Maniac – o mais fraco de todos – evidencia a falta de ambição dos seus realizadores na conclusão dessa intrincada história. Ao introduzir a personagem da mãe do Dr. James, a psicóloga Greta, cuja mente serviu de molde para o computador GRTA, a série praticamente estabelece que este será o ponto de virada na trama que a própria produção nos fez antever (lembrem, o público está mais sofisticado para narrativas complexas). Mas daí nada desta sorte acontece.

De uma atração que carregou seus dois primeiros atos cercados de tanto mistério sobre sua natureza, Maniac encerra-se retornando à linearidade narrativa e coloca por terra tudo aquilo que pré-estabeleceu. Seu desfecho simplório e lotado de pontas soltas indica que é o roteiro de Sommerville que fez a produção oscilar por tantos gêneros para terminar como um romance efêmero e esquecível de Sessão da Tarde.

Poderia ter sido uma minissérie que nos faria pensar sobre sua temática por muito tempo depois de encerrada, aprofundar-se nos distúrbios psicológicos de humor e como isso contribui para uma sociedade cada vez mais introvertida e impessoal, mas não. Há muito tempo não vejo uma produção que tinha tudo em mãos e decidiu jogar para o alto e terminar sem deixar nenhum elemento para ser discutido, analisado, repensado…

Gostei da minissérie, ela está longe de ser ruim. É tecnicamente arrebatadora em todos os seus aspectos técnicos. Emma Stone, Jonah Hill, Justin Theroux e, especialmente, Sally Field e Rome Kanda estão todos excelentes. É tudo tão primoroso nos cenários bem construídos, nas tecnologias analógicas extremamente bem pensadas, os figurinos impecáveis etc., mas tudo em prol de um roteiro maníaco-depressivo que pregou armadilhas em si mesmo e impediu Maniac de exercer todo o seu potencial.

Uma pena.


ss