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Por: Bruno Carvalho

Ozark não consegue manter o nível na 2ª temporada

Eu gosto muito da primeira temporada de Ozark. Embora seja claramente uma tentativa da Netflix e dos criadores Bill Dubuque e Mark Willians de emular o sucesso de Breaking Bad, o drama conseguiu estabelecer um universo próprio, sombrio e contar uma história interessante, independente das similaridades óbvias com a série de Vince Gilligan. Além disso, a escolha de Jason Bateman (Arrested Development) para o papel de protagonista foi acertada, mesmo com seu background cômico (vale lembrar que Bryan Cranston também vinha do universo das comédias).

Na história do primeiro ano, acompanhamos a virada na vida de um até então pacato contador, que secretamente prestava serviços para o cartel de drogas mexicano, ajudando a lavar o dinheiro oriundo do tráfico. Acuado pela morte de seu sócio, ele muda para a região remota do Lago Ozark, no interior do Missouri, e lá faz um pacto com a milícia para continuar a operação sob ameaça de perder sua própria família.

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É um drama com muitas doses de humor negro que oscila entre momentos cômicos e cenas muito pesadas, criando uma atmosfera de constante tensão em uma trama ágil e fácil de ser acompanhada, especialmente em formato de maratona.

O mesmo, contudo, não pode ser dito sobre a 2ª temporada, que chegou semana passada na Netflix. Há uma patente “maldição” que permeia séries que tem uma estreia grandiosa: manter o nível nas temporadas seguintes. Enquanto Vince Gilligan conseguiu o feito lá em Breaking Bad, Ozark teve uma severa queda de qualidade nos novos episódios, o que atribuo à velocidade em que os eventos desenrolaram no ano um.

Estabelecida nos Ozarks, a família Byrde agora precisa lidar com as dificuldades impostas pela chegada de novos players e a constante necessidade de continuar “lavando” uma quantidade absurda de dinheiro para o cartel (algo que aqui é deixado de lado). Porém, em vez das saídas “geniosas” que Marty Byrde tinha na primeira temporada, agora suas opções se viram limitadas ao burocrático esquema de abrir um cassino (alô, Billions), incomodando políticos e poderosos comerciantes locais.

Um dos destaques positivos, contudo, é a ascensão de Ruth Langmore (Julia Gardner, The Americans), que rouba praticamente todas as cenas em que protagoniza. Enquanto isso, contudo, Marty se torna uma persona completamente irresponsável e alheia à realidade dura e iminente que cerca ele e sua família, tornando os diversos embates com sua esposa Wendy cansativos e repetitivos (perdi a conta de quantas vezes o casal discute, nesta temporada, sobre a necessidade de “não tomar decisões sem falar com o outro”).

Assim, de um um interessante e imprevisível drama/comédia de erros, Ozark se tornou uma série errática, sem um objetivo claro (viabilizar o cassino ou fugir?), piorada pelo comportamento constantemente imbecil dos filhos do casal e da volatilidade das prioridades que a própria série estabelece.

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Um dos grandes feitos de Breaking Bad e sua “sucessora-antecessora” Better Call Saul, era mostrar o peso e a consequência das decisões do protagonista e daqueles que o cercam, mas aqui cada vez que Marty Byrde está numa sinuca de bico, o roteiro “saca” uma solução simplória e que desafia a nossa inteligência, criando diversos furos (que já estavam presentes na primeira temporada, mas em grau muito menor) difíceis de engolir.

O desenvolvimento dos personagens também é prejudicado nesta temporada devido à constante mudança de prioridades dos comandantes da família Byrde e de seus algozes (em especial os Snell). Ainda que trazendo aqui e ali momentos absurdamente geniais (o episódio em que Darlene mata Peter é um primor), a série sacrifica bons personagens e potenciais histórias para manter uma situação que em si é insustentável: Marty como um investidor de sucesso nos Ozarks, enquanto claramente há algo estranho aí.

Certamente Ozark será renovada para a 3a temporada, mas inevitavelmente terá que reorganizar melhor suas peças, em vez de simplesmente “eliminar” ameaças à familia Byrde quando estas chegam próximas demais (veja pela quantidade de mortes que tivemos, aparentemente sem grandes consequências). É patente que os Byrde precisam prosperar para que a série continue, mas isso poderia ser feito com um pouco mais de planejamento por parte dos roteiristas em vez de depositar todas as fichas no recurso “Deus ex Machina”, onde soluções fáceis para situações difíceis pulam da cartola do mágico como um coelho saltitante.


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