FOTO: HBO

Por: Bruno Carvalho

The Deuce: o retrato nu e cru de uma década volátil e agitada

The Deuce, série criada por George Pelecanos e David Simon (The Wire), retorna esta noite às 22h para a segunda temporada na HBO. O drama original mostra o crescimento astronômico da indústria da pornografia na Nova York dos anos 1970 e como sua legalização fez desse um ramo multimilionário e fincado na cultura norte-americana e mundial. A primeira temporada é um interessantíssimo retrato de uma época, numa produção que leva para a tela a maior parte daquela aura de descobertas e quebra de paradigmas, discutindo ainda questões políticas e sociais que são relevantes até hoje.

Composta por nove episódios, a segunda temporada retoma a história cinco anos depois do final da primeira, já em 1977, com uma Times Square preparada para ser palco de mais uma revolução. No capítulo que a HBO exibiu pra imprensa, vimos que os negócios dos gêmeos Frankie e Vinnie (James Franco, mantido nos papeis após denúncias de assédio) decolam, enquanto a ex-prostituta Candy (Maggie Gylenhaal) assume cada vez mais protagonismo na produtora de filmes pornográficos de Harvey (David Krumholtz, que emagreceu horrores).

FOTO: HBO

Esta não é uma série de grandes acontecimentos e viradas, como costumeiramente visto nos domingos da HBO com Game of Thrones e Westworld. Pelo contrário, Simon e Pelecanos são grandes entusiastas do realismo e, tal qual fizeram na irrepreensível The Wire, comandam aqui uma série cujo principal atributo é o método e o apuro histórico. Perfeccionistas da verossimilhança, The Deuce é narrada quase que de forma documental e isenta, como se as lentes de seus realizadores percorressem no tempo e testemunhassem, sem qualquer julgamento de valor, os pormenores que somente quem viveu aquilo conheceriam.

Não raro, contudo, existir a sensação de que “nada ocorre”, pois a maior parte dos episódios (incluindo este primeiro) é montada com uma sequência de recortes que fazem mais sentido quando vista num contexto maior, que vai sendo criado ao longo da temporada. Simon e Pelecanos, no entanto, introduzem elementos ali que, bem explorados pelo diretor e parceiro habitual da dupla Alex Hall, darão o mote dos capítulos seguir e das transformações que veremos naquele microcosmo conhecido como a região do Deuce, em especial a eclosão do feminismo e a revolução sexual do fim da década de 70.

The Deuce é uma pequena obra-prima que vale a nossa atenção graças ao olhar apurado e singular que tem sobre interessantes histórias que inevitavelmente se cruzam, a fotografia caprichada e a trilha-sonora que praticamente nos transporta para aquela época (do crescimento do punk ao estabelecimento da era disco). Pra quem não assistiu, a primeira temporada está toda disponível na HBO GO e não poderia recomendar mais (assim como, claro, a ótima The Wire).


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