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Por: Bruno Carvalho

Visita ao Set: infiltrei o refúgio dos “sintéticos” da 3ª temporada de Humans!

A série Humans retorna para sua terceira temporada nesta segunda, 17 de setembro, às 23h30, no canal AMC. O drama, desde a sua estreia, oferece uma visão singular da evolução da tecnologia e de seus efeitos na sociedade, com o foco na inteligência artificial. Enquanto produções como WestworldMatrix e Mr. Robot abordam o tema sob diferentes perspectivas mais focadas no “apocalipse” tecnológico, Humans segue um caminho diferente e é ambientada em um presente que explora o que acontece quando as fronteiras entre seres humanos e máquinas se tornam cada vez mais estreitas.

A Inteligência Artificial em Nosso Dia a Dia

Ao falarmos sobre “AI” parece que estamos tratando de um tema remoto, quando na verdade ela está mais presente em nossas vidas hoje do que realmente imaginamos. Em diversas áreas, da medicina ao direito, a inteligência artificial já é largamente utilizada, especialmente para a realização de tarefas repetitivas e em alto volume, pois através do “machine learning”, sistemas conseguem aprender muito sobre como realizar tarefas que antes dependiam de humanos para executá-las.

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A principal novidade, em Humans, é que tais sistemas foram sintetizados em robôs humanoides – daí “os sintéticos” – que na série passam a conviver com humanos para nos servir em tarefas corriqueiras. Ao contrário de Westworld, eles não estão em um parque de diversões para exercemos prazeres violentos, mas sim ajudando no dia a dia em tarefas ordinárias e corriqueiras, tal qual os atuais softwares fazem.

A Inevitável (?) Sencicência

Um ano após ganhar a consciência, uma população oprimida de Sintéticos luta para sobreviver em um mundo que os odeia e teme. Na Grã-Bretanha dividida, Sintéticos e humanos lutam para estabelecer uma paz incômoda, mas quando começam a aparecer divisões dentro da comunidade artificial, toda a esperança de estabilidade fica ameaçada. Partindo do turbilhão do caos político, as complexidades éticas da aurora de uma nova espécie se desenrolam através de uma emocionante narrativa multifacetada.

Foi neste contexto que, a convite do canal AMC, viajei a Londres em dezembro do ano passado para descobrir como essa história se desenvolverá na nova temporada de Humans.

O refúgio sintético

Num frio de 3ºC, viajamos até os arredores de Londres até uma usina de energia elétrica desativada, que serviu de locação para parte dos eventos que assistiremos na série a partir desta segunda na tela do canal AMC. Antes de acessarmos as locações, o grupo de jornalistas de vários países, incluindo eu, precisou assistir a um vídeo de instruções da usina, que imediatamente remetia àqueles filmes de “orientação” da Iniciativa Dharma de LOST. Um início inusitado, mas que nos transportou para uma realidade paralela e isolada do mundo moderno, já que a fita (sim, fita!) remontava da década de 1990, quando a usina ainda operava plenamente.

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Lá, tive a oportunidade de acompanhar algumas cenas inéditas sendo gravadas para a temporada e também de conversar com os atores que interpretam os sintéticos refugiados nesta nova realidade que a série traz. O simpático Ukweli Roach, que interpreta o personagem Anatole, senciente desde o “dia zero”, foi o primeiro a falar conosco sobre o estado em que seu personagem se encontra:

“Eu não acho que Anatole está sendo manipulado por ninguém agora. Ele está livre e ele é ele, essencialmente. Isso traz uma nova perspectiva para o personagem nessa temporada, pois ele começa a aprender algumas habilidades humanas, mas ele não consegue dominar isso completamente ainda, o que acaba virando uma fraqueza a ser explorada por outros ao longo da temporada, especialmente quando ele começa a querer ‘apressar’ demais a guerra que está por vir, já que tanto ele quanto Max não se vêm como uma ‘subclasse’, como os humanos os colocam. A função de Anatole agora é ficar dos dois lados, dividir e conquistar.”

Pessoalmente, Ukweli dividiu sua opinião sobre a Inteligência Artificial:

“Pra mim o conceito de inteligência artificial real é muito assustador e incrível ao mesmo tempo. É algo que eu nunca pensei antes de fazer essa série. O potencial devastador é imenso, mas penso que o que pode ser usado para o mal, também pode ser usado para o bem. Acho que isso vai acontecer pelo jeito que as coisas estão acontecendo, mas devemos ir com cuidado. Uma máquina sem consciência ética, moral ou sem o conceito de culpa poderia ser muito ruim em mãos erradas. Mas quero pensar que mesmo nas piores consequências, um robô não teria o sentimento de esperança, que é o fundamental para a espécie humana prosperar”.

É uma perspectiva deveras interessante que ele apresenta.

O Outro Lado

Do lado de “cá”, Laura (Katherine Parkinson) superou a desconfiança que nutria pelos Sintéticos e é hoje a sua mais leal e fervorosa defensora dos robôs. Contudo, a luta pelos direitos deles se tornou um trabalho solitário e ingrato, já que ela sacrificou uma carreira de sucesso para montar sozinha um escritório de advocacia exclusivamente para defesa dos conscientes, mas poucos humanos aceitam isso:

“Esses novos episódios são os meus favoritos até agora. Sobre Laura, ela agora passa por uma situação financeira difícil como porta-voz dos ‘Direitos dos Sintéticos’. As contas começam a acumular e ela segue vivendo numa família que ao mesmo tempo é funcional e disfuncional, mas ela tentará de todo custo impedir a iminente guerra que está vindo. Seus ideais desde a primeira temporada não mudaram, ela ainda quer um mundo onde os Sintéticos, especialmente os conscientes, sejam tratados com o respeito merecido.”

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Pessoalmente, Parkinson não sabe como se sentiria sobre os ‘Direitos dos Sintéticos’ se a situação fosse trazida para a nossa realidade:

“Eu acho que o dilema da série também seria aplicável ao mundo real. Sem revelar nada sobre o que vai acontecer nessa temporada, eu diria apenas que fiquei chocada com algumas decisões que Laura precisa tomar na série e espero apenas nunca ter que tomar as mesmas decisões que ela no mundo real.”

A coroa é pesada para Max, o líder eleito do “Railyard”, na comunidade sintética que é ambientada na remota usina desativada em que estive. Pacifista e de bom coração, ele lutará para reconciliar a sua natureza profundamente moral e otimista com as duras realidades que o seu povo enfrenta. O plano dele é esperar e ter esperanças numa eventual melhoria das atitudes humanas. Contudo, à medida que uma nova ameaça assassina surge, transformando o conflito em violência aberta, esta estratégia parece ingênua. Max é levado a mudar de rumo, mas ele conseguirá tomar as decisões necessárias para manter o seu povo vivo e ao mesmo tempo manter-se fiel a si próprio? O ator Ivanno Jeremiah comentou enquanto ainda estava vestido com o figurino do personagem:

“Ele acaba virando um líder de guerrilha na comunidade de verdadeiros expatriados, onde as regras se tornaram tão extremas com as iniciativas do governo de perseguir os sintéticos, que agora precisam esconder o tempo todo e descobrir seu novo lugar na sociedade. A opção é virar sucata ou tentar lutar pelos direitos dos sintéticos. Por isso essa será uma temporada muito politizada, mas também com um clima de guerra – como dá pra ver pelas minhas roupas. Hoje filmaremos uma cena onde Max é de certa forma eleito como o líder desse grupo e ele precisa tomar importantes decisões sobre como conduzir a agenda, como se fosse um partido que lida com diversas contradições e interesses conflitantes”.

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De fato, a cena que presenciamos mostra uma espécie de “sala do conselho”, onde Max e seus aliados se juntam para tomar decisões. O ambiente industrial abandonado contribui para dar à cena as características de um clima árido e inóspito, tanto que fora escolhido pelos sintéticos para se estabelecerem enquanto decidem quais serão os próximos passos. Jeremiah comenta:

“Nas cenas que estamos gravando passarei muito tempo com um sintético que penso ser meu confidente, mas ele acaba me traindo e fica evidente que ele faz parte de uma facção totalmente diferente, que não tem objetivos pacifistas. Existem grupos extremistas em ambos os lados – humanos e androides -, então atualmente estou filmando muito com esse ‘Judas’. Por agora eu sou o líder.”

Os responsáveis pelo set pediram para não divulgarmos os detalhes específicos da cena e da “virada” que ocorre.

O que é ser ‘Humano’?

Por fim tivemos a oportunidade de falar diretamente com os criadores e produtores de Humans, Sam Vincent e Jonathan Brackley. Eles abriram a entrevista dizendo que essa será a “maior” temporada até agora e mostrará, agora que todos os sintéticos adquiriram consciência, o verdadeiro nascimento de uma nova espécie que competirá com a forma antiga de vida inteligente. Vincent comenta:

Essa temporada tem todos os elementos que fizeram de Humans um sucesso. Como toda boa ficção científica a ideia é de usar elementos do mundo que somos hoje para projetar o que aconteceria nessa ‘realidade’, então a série vai espelhar muito o que está acontecendo no mundo com os extremismos de [Donald] Trump com os refugiados, o Brexit etc., mas o importante que descobrimos é nunca ser muito específico, embora seja difícil discordar que estamos hoje vivendo numa sociedade muito mais dividida. Essa, contudo, foi uma escolha natural para o desenvolvimento da série considerando o estado em que a temporada anterior deixou, com o caos gerado.”

Brackley complementou:

“Ao longo dessas três temporadas a gente nunca tentou definir o que é ‘ser’ humano, mas demos vários indícios para que os próprios espectadores tirem suas próprias conclusões, especialmente quando observamos as interações entre os humanos e aqueles com inteligência artificial. Não queremos chegar num ponto final sobre essa questão, que é muito complexa. Não há uma resposta simples, pois envolve filosofia, convicção, senso de identidade e até fé. Na terceira temporada veremos os sintéticos formando a sua própria cultura e retratar isso é um desafio interessante. Não queremos com a série definir o que é ser ‘humano’, pois não há conclusão empírica pra isso, mas certamente estamos entusiasmos em mostrar que ser humano pode ser um conceito mais fluido e menos binário do que jamais pensamos ser. Como um personagem bom e que faz o bem como Max pode ser ‘menos’ humano que alguém de carne e osso que faz mal? É isso que queremos explorar: que a definição do que é ‘humano’ é hoje muito mais sujeita a interpretações do que era há 50 anos.” 

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Com oito episódios, a nova temporada terá Mark Bonnar (Catastrophe) se juntando a Gemma Chan (Capitã Marvel), Katherine Parkinson (Sherlock), Tom Goodman-Hill (Mr. Selfridge), Emily Berrington (24 Horas), Colin Morgan (The Fall), Ivanno Jeremiah (Black Mirror) e Ruth Bradley (Pursuit).

Baseado no premiado drama de ficção científica sueco Real Humans, de Lars Lundstrom, Humans tem produção executiva de Vincent, Brackley, Derek Wax e Emma Kingsman-Lloyd e a terceira temporada foi encomendada para o Channel 4 britânico por Beth Willis e Simon Maxwell e Kristin Jones para o AMC.

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