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Por: Bruno Carvalho

O Mundo Sombrio de Sabrina é um ótimo remake dark da série teen dos anos 90

Não são raras as vezes em que Hollywood produz reboots e remakes que empalidecem diante da obra original ou soam demasiadamente oportunistas, apenas para capitalizar em cima de alguma franquia ou nome de sucesso. O Mundo Sombrio de Sabrina, contudo, é uma das poucas produções que fogem desta regra e apresenta uma nova perspectiva da série original Sabrina, Aprendiz de Feiticeira, que por sua vez é baseada na HQ dos anos 60 do selo Archie Comics. Esta nova versão é diretamente derivada da releitura da HQ feita por Roberto Aguirre-Scasa (Riverdale) e é ambientada naquele mesmo universo, muito mais dark que a original.

Kiernan Shipka, a eterna Sally Draper de Mad Men, se mostra como a escolha perfeita para o papel. Sabrina Spellman é uma adolescente meio-humana e meio-bruxa que, aos 16 anos, precisa escolher entre o mundo sobrenatural e seus amigos na sombria cidade de Greendale (vilarejo vizinho ao de Riverdale). Desde os primeiros minutos em tela nesta nova produção da Netflix e Warner, ela já confere à Sabrina uma segurança enorme, distanciando muito da jovem e amalucada feiticeira interpretada por Melissa Joan Hart na produção dos anos 90 que tinha uma pegada mais cômica.

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Em O Mundo Sombrio de Sabrina, a trama se desenvolve graças aos eventos em torno do 16º aniversário da jovem híbrida e da obstinação da vilã Mary Wardell (Michelle Gomez, Doctor Who) em acabar com o “clã” Spellman – o que cria uma narrativa dinâmica e intensa -, mas que também não disfarça seu foco em temas atuais e relevantes como sexualidade (muito pela presença de personagens não-binários ou pansexuais), igualdade de direitos, bullying, shaming etc. – alguns deles por meio de inteligentes alusões com o mundo bruxo/religioso. Além disso, a produção aborda o empoderamento feminino com propriedade, especialmente através de Sabrina – uma personagem sempre forte e dominante em tela.

Apesar da ambientação adolescente e o fato de estar direcionada ao público teen, ela tem também um apelo adulto, especialmente traduzido pela estética sombria, fotografia dessaturada e pelas cenas de horror que não poupam sangue e gore, tornando esta uma produção até mesmo mais madura que a colega Riverdale. O elenco de apoio, em especial as atrizes que interpretam as tias de Sabrina (Miranda Otto, de Homeland e Lucy Davis, de Better Things) é ótimo.

Evidente, contudo, que assim como ocorre na série da Turma do Archie, Aguirre e os roteiristas cometem alguns deslizes como a falta de foco sobre o direcionamento da trama em alguns dos episódios, além de de uma dose um pouco carregada de diálogos expositivos que poderiam ser evitados, já que tarimbam o gênero e subestimam sua audiência target que, mesmo mais jovem, já é madura o suficiente em termos de linguagem televisiva e cinematográfica para entender certos acontecimentos, surpresas e viradas na trama. Ainda assim, o saldo é extremamente positivo e deixa claro que esta releitura é muito bem-vinda.


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