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Por: Bruno Carvalho

House of Cards retorna mais concisa e com grandes reviravoltas na temporada final

[contém leves spoilers] A primeira produção verdadeiramente original da Netflix retorna amanhã, 2 de novembro, para sua sexta e última temporada, após despedir seu protagonista por conta do escândalo de assédio sexual e moral ao qual deu causa. A gigante do streaming disponibilizou ao Ligado cinco dos oito episódios que encerram a trama de House of Cards e o que posso falar desde já é que esta é uma das melhores levas de episódios, senão a melhor, desde o ótimo ano de estreia. Beneficiada pelo número reduzido de capítulos, a narrativa se tornou mais concisa e bem mais direta ao ponto, sem qualquer tipo de rodeios e tramas paralelas aborrecidas que fizeram parte da série em sua jornada.

A Ascensão de Claire

Ao contrário do que muitos detratores da dispensa de Kevin Spacey afirmaram, House of Cards já naturalmente caminhava para conferir à personagem de Robin Wright, Claire Underwood, um maior protagonismo na história. O 5º ano terminara com Frank exilado da política de Washington num hotel com vista distante para a Casa Branca e sua esposa e vice (nada decorativa) assumindo o cargo de comandante executiva da nação. A diferença é que, por razões óbvias, os roteiristas precisaram matar o presidente, que não poderia estar fisicamente presente nos episódios. Uma solução necessária, mas executada com maestria, como abordarei à frente.

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Claire sempre foi uma figura importante no jogo de cartas que levou Frank à presidência, sendo ela confidente, co-arquiteta e cúmplice dos maiores malfeitos do personagem. O projeto de poder era dos Underwoods, não apenas de Frank, muito evidenciado pelo casamento de aparências que ambos mantinham. Com Francis fora do quadro, Claire tem que lidar não apenas com sua nova função, mas com o enorme passivo que o ex-marido deixou em sua extensa ficha criminal, com várias pontas soltas, incluindo aí Doug Stamper e Catherine Durant, além de seus próprios esqueletos, personificados no assassinato do biógrafo Tom Yates.

Aliás, o rico time de coadjuvantes que House of Cards sempre teve (que tem Campbell Scott, Constance Zimmer, David Giesbrecht e outros) continua sendo um dos pontos positivos da série e que aqui é intensificado pelas motivações pessoais dos personagens, que se organizam diante da nova estrutura. Assim, mesmo que dinâmicas e situações já vistas na série inevitavelmente retornam (não quero ser específico aqui), elas vêm com o fator de imprevisibilidade, já que as peças no tabuleiro mudaram de lugar.

A persistente sombra de Frank Underwood

Kevin Spacey saiu, mas Frank não. Como disse acima, mesmo morto, a “presença” de Frank na série é patente e não foi ignorada. O ex-presidente está em grande parte das conversas e estratégias do governo Claire nesta temporada final. Natural em uma série que girava em torno de seu fechado núcleo. Sua sombra vem personificada na chegada de novos personagens, os irmãos Bill (Greg Kinnear, Rake) e Anette Shephard (Diane Lane, Batman vs. Superman), dois irmãos industriais com quem Frank celebrara um escuso acordo que os livraria de responsabilidade ambiental e cujo projeto de Lei está na mesa de uma relutante presidente Claire para ser sancionado.

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“Whodunnit?” e reviravoltas

Frank está morto, como sabemos, mas isso não quer dizer que sua história está 100% enterrada. Embora o personagem (até onde vi) jamais apareça, os roteiristas parecem ter transformado esta situação (a conferir pelos episódios finais) em um verdadeiro “whodunnit?”, gênero narrativo conhecido por aqui pelo famoso bordão novelesco do “quem matou?”. Isso, porém, não é o mote principal da temporada, sendo inserido cuidadosamente ao longo do desenvolvimento da história e que certamente pautará mais uma das várias reviravoltas chocantes que esta temporada traz (contei pelo menos três nos primeiros cinco capítulos).

* * *

O último ano de House of Cards traz frescor à série, que vinha desanimada e no automático. Seu maior trunfo é o amadurecimento de personagens ou da história que os cerca, agora perto do fim. Claire exibe traços de alta megalomania e calculismo – tal qual Frank, é certo -, mas com a vantagem de ser desprovida de vaidade e ansiedade, tornando-a ainda mais surpreendente, fria e ameaçadora quando quer. Isso, inclusive, já havia sido sugerido em diversos momentos nas temporadas mais recentes, ma que aqui ganha contornos ainda maiores devido ao cargo que ocupa e pelo fato de não ter mais Frank ao seu lado.

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Com isso, pude perceber que essa leva final de episódios sem Spacey acabou inadvertidamente beneficiando a série como um todo, que indica que vai sair por cima, já que os roteiristas foram necessariamente obrigados a mudar os rumos da atração para acomodar situações externas.

Um fim apressado

Isso infelizmente fez com que o desenvolvimento da reta final da série fosse prejudicado. Depois de assistir aos três capítulos finais, ficou claro que House of Cards preparou um “final de temporada” em vez de um final de série. O desfecho da trama foi pra lá de inconclusivo e não amarrou bem as diversas pontas soltas que a própria temporada deixou. Encerrou-se de forma satisfatória a jornada de Doug Stamper (com direito ao personagem passando a se comunicar com o “espectador”), mas o desfecho de Claire ficou aquém daquilo que a própria personagem representa.

Assim, tiro uma “estrela” da minha cotação original para os 5 episódios disponibilizados antes da estreia. House of Cards merecia e deveria ter tido um fim mais contundente e menos aberto, ainda que exista a possibilidade da Netflix querer transformar a produção numa franquia posteriormente .


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