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Por: Bruno Carvalho

CCXP faz em 2018 sua maior e melhor edição até hoje

Comic Con Experience nasceu em 2013 com o propósito de trazer a experiência das maiores Comic Cons do mundo, em especial a de San Diego, para o público brasileiro. Em apenas cinco edições, porém, o evento deixou de ser um experimento e se tornou um gigante abraçado tanto pela indústria do entretenimento quanto pelos fãs – algo raro de acontecer com tamanha intensidade – e se estabeleceu como obrigatório (e acrescentaria, indispensável) no calendário mundial das grandes feiras do tipo. A CCXP18 foi maior, melhor, mais organizada e com um desfile invejável de grandes nomes e conteúdo de alta qualidade.

Números e nomes impressionantes

262 mil visitantes nos quatro dias de evento + spoiler night estiveram presentes, além de 42 delegações dos maiores e mais respeitados estúdios de Hollywood, um recorde do festival. Jake Gyllenhaal, Sandra Bullock, Zachary Levi, Tom Holland, Brie Larson, Ellen Page, Michael B. Jordan, Sebastian Stan, Maisie Williams, Andy Serkis, John Bradley, D.B. Weiss, David Benioff e Tom Holland, entre tantos outros, foram os destaques desta edição. Alguns deles, sequer anunciados antecipadamente, foram “dropados” de surpresa, um desejo que o idealizador Érico Borgo, do site Omelete, externou lá na coletiva da primeira edição. Hoje a CCXP não mais depende de anunciar seu lineup para que ingressos sejam vendidos. Basta confiar e eles entregariam, ele sempre prometeu. E entregaram. Pacotes de 4 dias se esgotaram meses antes até dos maiores nomes serem anunciados. Isso que uma Comic Con de respeito faz e essa fez.

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Além disso, a feira trouxe um impacto econômico para o país estimado em R$ 100.000.000,00, de acordo com os organizadores, gerando 10 mil empregos diretos e indiretos.

Paineis e conteúdos de primeira linha

Com um auditório capaz de abrigar mais de 3.000 pessoas, os painéis foram novamente o grande ponto de encontro desta edição. No lugar de trailers e conteúdos frios ou reciclados de outros eventos como a própria SDCCD23, a CCXP18 trouxe a maior quantidade de material inédito de seus 5 anos, alguns deles que apenas foram exibidos para aquele público. Além de cortes estendidos de trailers, cenas inéditas, bastidores e recados gravados de artistas que não puderam vir, o público foi agraciado com pré-estreias exclusivas de grandes filmes como Aquaman (que quase derrubou o auditório Cinemark XD, leia a crítica), Wi-Fi Ralph e Creed II, além de exibir quase metade da animação Homem-Aranha no Aranhaverso, que estreia somente em 2019.

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Obviamente a feira não consegue bater o desfile de celebridades de edições como a de San Diego ou Nova York, mas isso se deve, estimo eu, apenas por questões geográficas e logísticas. Ainda assim, a CCXP faz bonito e compensa quantidade por qualidade. Já cobri por várias vezes a SDCC (remotamente) e estive nas duas últimas edições da NYCC. Os painéis destas feiras citadas são meras “coletivas” de imprensa enfadonhas, quase sempre sem brilho e na maior parte do tempo desanimadas, ao passo que aqui os realizadores fazem de tudo para entregar um verdadeiro espetáculo para os fãs, que não raramente vão ao delírio coletivo.

Nem sempre todos os painéis funcionam, é claro. Um dos melhores momentos do dia de abertura, por exemplo, foi a orquestra da HBO tocando o tema de Game of Thrones, mas seguido de uma conversa longa e sem foco entre D.B. Weiss, David Benioff e os atores Maisie Williams e John Bradley. Em certo ponto os próprios participantes do painel mostraram desconforto e cansaço pela extensão do papo, que não foi intercalado com nenhum material audiovisual, ainda que de temporadas anteriores, pra dar uma animada na turma. Ao final, um maroto “teaser” foi lançado ali, decepcionando quem esperava, pelo menos, por alguma cena – ainda que inacabada – ou informação inédita da temporada final (já que esse era o tema proposto, ‘O Inverno Chegou’).

O mesmo ocorreu com a Netflix e Stranger Things, que costumeiramente encerra a feira, mas sem o estrondo dos anos anteriores. Quem passou a noite na fila do auditório levou pra casa de consolação apenas uma versão da abertura da 3ª temporada com os nomes dos episódios, que ficou disponível logo depois online nas contas oficiais do serviço de streaming. Os demais painéis da empresa, com The Umbrella AcademyMogli: Entre Dois Mundos e Bird Box, foram muito superiores em termos de conteúdo, especialmente este último que trouxe a première do filme para os presentes.

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O ponto alto foi o sensacional painel da Sony Pictures no sábado, que já está ficando característico como o melhor dia da feira (e o mais lotado). Além do ótimo material, o estúdio trouxe de surpresa nomes que seriam inimagináveis de aparecerem sem ser anunciados lá na primeira edição – algo que certamente será copiado pelos outros estúdios já no próximo ano (mas eles devem trabalhar melhor o sigilo sobre a chegada desses atores, já que as aparições viram notícia antes da hora e esmaecem a surpresa). Além da parceria dos estúdios, a maior parte dos painéis foi rica graças à curadoria do próprio Borgo e de Aline Diniz, responsáveis diretos pela produção deste segmento da feira (o cansaço na voz e aparência deles no dia 4 deixa claro a dedicação física e emocional dos dois).

A Disney também fez bonito e entregou um ótimo painel, com direito a uma cena eletrizante de Capitã Marvel. Podiam, pelo menos, ter esperado um dia pra soltar no evento o trailer de Vingadores: Ultimato, que saiu 24h antes na Internet.

Estandes grandiosos

Outra diferença brutal da CCXP frente a outras Comic Cons é a qualidade dos estandes – dos menores aos maiores. Enquanto lá fora temos uma ou outra ativação – a maioria bem boba e geralmente um photo-op padrão em cenário backdrop -, aqui as empresas capricham. Em 2018, Warner e HBO foram as grandes vencedoras com notas 9,9 e 10 em todos os quesitos carnavalescos. A primeira veio com uma área fechada e quase totalmente dedicada a Game of Thrones e a segunda com a maior área útil do evento – 900m2 – muito bem distribuída para anunciar suas propriedades em cinema e TV, com ativações ultra tecnológicas e divertidas (a de Supernatural era demais, assista abaixo).

Até mesmo estreantes como o Globoplay e o Amazon Prime Video se destacaram (o estande do Prime Video na NYCC ano passado, por exemplo, era apenas uma réplica do barco visto na série The Tick e nada mais). Promovendo Ilha de Ferro, o Globoplay levou uma plataforma de petróleo com helicóptero com simulador de voo para dentro do pavilhão, impressionando os visitantes, enquanto a empresa de Jeff Bezos não poupou despesas para recriar em detalhes o cenário de sua principal atração anunciada, American Gods. Acertadas também foram as decisões de HBO e Warner de distribuírem senhas nas atrações mais demoradas, evitando que o fã fique horas na fila reclamando da marca.

O que precisa melhorar

Comic Con Experience está longe de ser um evento perfeito por diversos fatores internos e externos. Pesa, e muito, o fato de o centro de convenções São Paulo Expo ser isolado da cidade de São Paulo, sem estrutura ao redor que comporte o intenso fluxo de pessoas, carros, vans e ônibus. Além disso, o estacionamento (caríssimo) é puro caos, especialmente na saída. 

Filas enormes para praticamente tudo também são um problema e, mesmo que seja algo comum em outros eventos, esta é uma experiência que não merece ser recriada. Muitas empresas precisam melhorar consideravelmente a qualidade de gestão de fluxo de seus estandes, tempo de espera e também criar atrações que sejam rápidas e seguras. Em determinado momento, funcionários do estande da Riachuelo, marca procurada por vender itens de vestuário e casa licenciados de várias atrações, passaram a alertar os consumidores a protegerem bolsos, bolsas e mochilas, tamanha a incidência de furtos de celulares e carteiras. Houve também incidentes com atividades físicas (uma mulher caiu em um estande de gincana e precisou ser socorrida por brigadistas, como eu mesmo testemunhei).

Isso sem contar os preços “de aeroporto” praticados pela maior parte dos lojistas. Lanchonetes (apenas opções nada saudáveis) se aproveitavam da falta de opções no entorno para explorar o público e no varejo indoor era possível encontrar itens iguais (como bonecos Funko) com disparidade de preços de até 500%. Isso é algo que deveria ser melhor controlado pelos organizadores.

O Veredito

Mesmo com os contratempos – afinal, são mais de 250 mil pessoas no mesmo lugar em apenas 4 dias -, a Comic Con Experience é algo que vai completamente além de qualquer outro evento cultural já feito no Brasil, incluindo bienais, feiras de jogos, automóveis etc. Eles estabeleceram um alto padrão até mesmo para as edições internacionais, que – e isso ouvi de grandes nomes da indústria – precisam se movimentar pra chegar no nível de sofisticação do evento brasileiro.

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Temos a maior e hoje uma das melhores Comic Cons do mundo, com expertise 100% nacional e que em 2019 até exportada será, com uma edição confirmada na Alemanha.

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