FOTO: NETFLIX

Por: Bruno Carvalho

The Umbrella Academy é uma ótima e intimista série sobre herois problemáticos

Quando dezenas de mulheres subitamente apareceram grávidas e tiveram seus filhos no mesmo dia no fim da década de 80, o bilionário Reginald Hargreeves adquiriu sete delas e criou o grupo de herois que ficou conhecido como The Umbrella Academy. As crianças que vieram a se tornar uma espécie de família e sofreram abusos físicos e psicológicos, além de terem sido comercialmente exploradas em vantajosos contratos de licenciamento. Isso, por óbvio, os transforma numa “super-equipe” bem diferente daquelas que estamos acostumados a ver nos cinemas e até mesmo na TV.

FOTO: NETFLIX

Esse é o ponto de partida da interessante The Umbrella Academy, série da Netflix baseada na HQ de Gerard Way e Gabriel Bá, do selo Dark House Comics, que tem uma produção com um visual arrojado, personagens complexos e disfuncionais, ótimos efeitos visuais e práticos (em especial de maquiagem), além de uma narrativa intrincada.

Identificados por números pelo próprio “pai”, os garotos Luther (Tom Hopper, #1/Spaceboy), Diego (David Castañeda, #2/Kraken), Allison (Emmy Raver-Lampman, #3/Rumor), Klaus (Robert Sheehan, #4/Séance), Número 5 (Aidan Gallagher, #5/Garoto) e Vanya (Ellen Page, #7) possuem, cada um, habilidades bastante específicas e personalidades fortes e distintas que são o estopim dos conflitos familiares que a série frequentemente aborda. Também povoam este universo único o mordomoda família, um macaco inteligente chamado Pogo (Adam Godley), e os vilões Hazel (Cameron Britton) e Cha-Cha (Mary J. Blidge), mandatários de uma organização obscura cuja missão é preservar a integralidade da linha cronológica e temporal no mundo.

The Umbrella Academy apresenta e desenvolve muito bem esse universo nos primeiros episódios (os melhores), principalmente considerando a complexidade da história. Para isso, seus realizadores utilizam com moderação recursos como a exposição, abrindo a trama – que se posiciona na maior parte do tempo em um momento pré-apocalíptico – de forma bem dosada. É uma pena, porém, que o “recheio” desta (no fim) satisfatória temporada inicial seja preenchido com momentos desinteressantes – alguns que não vão a lugar algum -, dando bastante voltas até retomar ao que realmente interessa nos episódios finais.

Obviamente inspirada por X-Men e Watchmen, a série se sai melhor quando o supergrupo está reunido, ainda que parcialmente, bem como em suas elaboradas cenas de ação e em nos diálogos inspirados, especialmente aqueles protagonizados entre Hazel e Cha-Cha e, é claro, por todas as interações do Número 5 – de longe o melhor e mais complexo personagem. Os conflitos, tanto entre os herois quanto desses com o pai, também representam o ponto alto da temporada, que perde força quando gasta demasiado tempo de tela focando em pontos menores e desviando a atenção da urgência que o iminente fim do mundo exige, ainda que seja algo claramente deliberado.

FOTO: NETFLIX

Além disso, a série tem certa dificuldade em lidar com os dilemas intrínsecos de viagem no tempo, tornando confusas (e simplórias) algumas explicações sobre os paradoxos inevitáveis ou até as regras adotadas, que parecem mudar com certa conveniência. Dito isso, e principalmente considerando o arco final (que, embora tenha reviravoltas previsíveis, é bastante eficiente), The Umbrella Academy se sai bem e indica que tem apenas que ajustar um pouco suas engrenagens para sua segunda temporada, que certamente virá, e que ainda tem muito terreno para ser explorado.

O drama traz um olhar intimista e fora-da-curva sobre o gênero de super-herois, tal como Legion recentemente fez, imprimindo uma marca própria (graças ao design de produção caprichadíssimo) e acaba estabelecendo um mundo intrigante e que nos faz querer retornar. É também bastante corajosa e elegante a forma com que encerraram o ótimo capítulo final.

Os comentários estão desativados.

ss