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Por: Bruno Carvalho

Leaving Neverland traz um retrato controverso e desconcertante sobre o Rei do Pop

| Aviso de gatilho: este texto possui em alguns momentos descrições que contém linguagem forte sobre supostos caso de abuso sexual. A discrição do leitor é recomendada.

A HBO Brasil começou a exibir ontem o documentário Deixando Neverland – um desconfortável e desconcertante relato de quatro horas sobre supostos casos de abuso sexual a menores envolvendo Michael Jackson e os então garotos Wade Robson e James Safechuck, hoje com 36 e 41 anos, respectivamente. A produção, cuja parte final será veiculada hoje a partir das 20h no canal, estreou inicialmente no festival de Sundance, causando reações mistas entre os detratores e os defensores do Rei do Pop.

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O documentário também foi acompanhado nos EUA por um especial de uma hora intitulado After Neverland, onde a apresentadora Oprah Winfrey, uma das poucas a entrevistar o cantor em vida, discute os casos de Robson e Safechuck diante de uma plateia composta por vítimas de abusos semelhantes aos narrados (a HBO Brasil não confirmou se exibirá este especial aqui). Assisti, então, às cinco horas de material e uma conclusão imediata é certa: é impossível não ficar abalado, de uma forma ou de outra, com Deixando Neverland.

O Rei e Eu

Desde criança sou um fã incondicional da música e da arte de Michael Jackson. Tive e tenho todos os seus álbuns desde o início da carreira solo em vinil, cassete, CD, além de todos os seus clipes em laserdisc, DVD e Blu-Ray etc. Assistia incansavelmente aos filmes O Mágico Inesquecível, Moonwalker, Captain EOe This is It e vi praticamente tudo que já saiu sobre o cantor: vídeos, reportagens, entrevistas, o documentário Living with Michael Jackson de Martin Bashir e a entrevista em resposta divulgada pelo astro e até chorei sua prematura morte.

Um caso complexo

Seria, então, muito fácil pra mim assistir a Deixando Neverland e seguir o coro da defesa cega às supostas denúncias contra Michael apresentadas no filme e que remontam desde os anos 1990. Ao mesmo tempo, também é difícil simplesmente condenar o falecido cantor com base em relatos de pessoas que já o publicamente defenderam e que até foram instrumentais em sua absolvição no único julgamento de tais acusações que ocorreu (o de 2003), já que os outros foram objeto de acordos extrajudiciais entre Michael e as famílias.

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Falar e se posicionar sobre Michael Jackson, sua carreira, controvérsias, polêmicas e também sobre sua vida é algo bastante complicado independente do enfoque, pois nunca houve (e provavelmente nunca haverá) um artista tão complexo como ele: a criança que foi forçada ser adulta, o adulto que só queria ser criança, o gênio da música e da dança adorado por bilhões, um ser humano agredido pelo próprio pai, um artista acuado e que precisou viver recluso por um mundo que também sabia ser extremamente hostil com suas peculiaridades. Ele fez o bem para muitas pessoas, como Oprah Winfrey destacou em seu especial, mas possivelmente também causou feridas colaterais em muitos dos que cruzaram seu caminho.

Deixando Neverland

O que mais me surpreendeu de início no documentário em exibição na HBO é que os relatos de Wade e James não são o de pessoas que parecem querem destruir a reputação do cantor e, pelo menos agora, não dizem buscar fama ou dinheiro (eles não receberam um centavo pelos depoimentos e Robson, especificamente, não está mais processando o espólio do cantor – falo disso adiante). Pelo contrário, nas falas dos hoje adultos (mais nas de James do que as de Robson, sim) existem ainda resquícios de um sentimento de amor e adoração semi-divina a Michael Jackson, a despeito do que eles dizem que ocorreu com eles.

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O documentário de Dan Reed é extremamente eficiente em navegar entre as histórias de seus dois personagens e apontar paralelos entre os diferentes pontos de vista sobre os mesmos fatos e momentos notórios da vida do cantor, com um alto grau de sincronia. Isso mesmo que Wade e James não se conheciam e jamais alinharam suas narrativas – ambos apenas se encontraram brevemente no rancho Neverland quando ainda crianças, pois o relacionamento deles com o cantor quase não foi contemporâneo. Lado outro, a produção assume de forma clara sua parcialidade ao exibir as declarações sem dar chance a um contraponto de representantes do espólio de Jackson ou de seus familiares.

O “Grooming”

O tipo de abuso sexual que os hoje adultos declaram ter sofrido quando estavam com o cantor nas tais noites do pijama em Neverland não é aquele acompanhado de violência física ou moral, como ocorre com muitas vítimas. As declarações explícitas sobre o relacionamento supostamente desenvolvido com o cantor e diversos outros meninos menores de idade mais se adequa ao que é conhecido como “grooming“, conforme Oprah Winfrey melhor explica em seu especial. Esta é uma tática utilizada por abusadores que preparam as vítimas para não contestar ou até mesmo aceitar com normalidade os atos abusivos, por meio de elementos positivos que são mais intensos no início e que vão gradualmente se transformando em atos escusos.

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Ambas as famílias de Robson e Safechuck também foram parte do alegado grooming perpetuado por Jackson, que incluía viagens pagas, jantares, presentes e até mesmo empréstimos voluptuosos que eram posteriormente perdoados pelo cantor. Isso fazia que os pais dos garotos se sentissem confortáveis em deixá-los dias e noites sozinhos com o cantor, tanto no rancho Neverland quanto em quartos de hotel, aliado ao fato de que Michael era visto como uma “criança que nunca cresceu”. Estas declarações ficam difíceis de serem ignoradas quando há abundantes registros de vídeo de Michael Jackson, inclusive em viagens, sempre acompanhado por menores desacompanhados de seus pais.

A falta de evidências e o excesso de indícios

Este é talvez o ponto mais fraco e, ao mesmo tempo, um dos trunfos de Deixando Neverland: enquanto Wade e James jamais apresentam provas materiais conclusivas sobre os abusos sexuais em si (que, segundo eles, envolviam masturbação mútua, sexo oral e até uma tentativa de penetração anal por parte do cantor em James), há no lugar – e isso não pode ser simplesmente desmerecido – um conjunto enorme de indícios consubstanciados em vídeos, áudios, registros de ligação e até documentos que dão validação contextual a muitas das ocorrências, alguns destes materiais inéditos até então. Michael Jackson era incontestavelmente uma presença contínua na vida da família destes garotos no período em que eles estavam juntos (relatam, ainda, que Michael elegia o “garoto” da vez, e foi o sentimento de ciúme desta prática que começou a gerar os desconfortos nos garotos). Em alguns casos ele até mesmo intervia nas rotinas familiares. Não era raros os momentos em que ele aparecia na casa de Safechuck e pedia para dormir lá, conforme atestado pelo motorista do músico, simplesmente por querer experimentar o que é ter uma vida normal. Pesa ainda o relato judicial da caseira do rancho Neverland, que informou que existia um “armário escondido” no quarto de Michael – que posteriormente foi encontrado numa revista à propriedade – e até mesmo instâncias onde ela havia testemunhado o cantor nu com os menores. Pesado.

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O filme revela também um comportamento obsessivo do cantor em querer “gerenciar” a rotina das famílias, com ligações, faxes, e até mesmo fazendo com que Wade Robson e sua mãe se mudassem da Austrália para os EUA, causando rupturas no núcleo familiar, especialmente entre os filhos e as figuras paternas (o pai de Wade, Dennis Robson, era bipolar e cometeu suicídio, sendo um dos motivos a revelação sobre os abusos supostamente sofridos pelo filho).

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Esse comportamento (e a constatação que foi um grande choque pra mim) sempre esteve à nossa frente o tempo todo, com múltiplas ocasiões em que Michael Jackson era constantemente visto acompanhado de um menor de idade em eventos, aparições, turnês e viagens: de ambos os garotos do documentário, do primeiro acusador Jordan Chandler e até mesmo do astro mirim McCauley Culkin. Há também os notórios “relacionamentos de fachada” entre Jackson e Lisa Marie Presley (filha de Elvis Presley) e com a enfermeira Debbie Rowe, mãe biológica de seus filhos, concebidos por inseminação artificial.

Contradições e mentiras de Wade e James

É inegável, contudo, que existem diversos furos ou detalhes da história de Wade e James que Deixando Neverland aborda de forma superficial – muitas vezes apenas parecendo dizer: “ei, nós falamos sobre isso, ok?” – como é o caso das contradições nas declarações. Há também fatos que foram simplesmente ignorados pelo diretor e condutor das entrevistas, como o comportamento errático especialmente de Wade que envolve mentiras não diretamente relacionadas ao caso, mas ainda assim mentiras. É contraditório, também, que o documentário seja bastante meticuloso e organizado ao falar dos casos envolvendo Jackson, mas não tanto ao abordar esses gaps nos depoimentos dos sujeitos, sem confrontá-los como um documentarista mais imparcial faria.

Wade e James afirmam que durante o processo de grooming, Michael Jackson constantemente os treinava para eventualmente negar todas as acusações e até mesmo proteger, sob ameaças de que eles seriam “presos”, o que explicaria o motivo de terem sempre estado do lado do cantor até recentemente. É pouco mencionado também o fato de que Wade Robson, que virou um coreógrafo renomado e trabalhou com artistas como Britney Spears e *NSYNC, tentou mover – sem sucesso – um processo bilionário contra o espólio de Jackson há apenas alguns anos.

Isso claramente afeta a narrativa de Deixando Neverland e, somado ao fato de não ter dado espaço para uma natural defesa de seus familiares, torna a peça invariavelmente enfraquecida.

Uma resolução que talvez nunca teremos

Como eu disse acima, Deixando Neverland e a história de Wade e James não podem ser imediatamente desconsiderados de forma cega, especialmente porque seus realizadores não pregam um linchamento de Michael Jackson, nem o banimento de seu legado artístico do mundo (como infelizmente já começou a ocorrer). Suas quatro horas contam uma história que, se for real, é devastadora, mas jamais chocante ou inesperada, sobre o comportamento obscuro e, sim, criminoso, do maior astro que a música já viu. Se for tudo uma mentira, por outro lado, o filme demonstraria como existem pessoas más o suficiente no mundo capazes de tudo por motivos igualmente escusos e criminosos, já que calúnia é também um crime cujo potencial ofensivo pode ser enorme, especialmente para os herdeiros e sucessores daquele que já não está mais entre nós para se defender.

O que Jackson e esses garotos faziam quando as portas se fechavam pode jamais vir à tona com uma evidência incontestável, seja pelo fato de que o cantor seria bastante precavido e que tais provas naturalmente se perdem com o tempo, seja pelo fato de que não haveria nada de preocupante a esconder. O que pode ser definitivamente dito sobre Deixando Neverland é que o filme abala novamente o legado cultural e humano que Michael Jackson deixou para o mundo.

FOTO: SONY PICTURES

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