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Por: Allan Verissimo

Crítica | Game of Thrones 8×02: a calmaria antes da tempestade final

Em determinado momento do episódio 8×02, Tyrion, Jaime, Brienne Podrick, Davos e Tormund estão no salão de Winterfell, bebendo, lembrando as suas antigas aventuras e esperando pela morte chegar, na companhia dos White Walkers. De repente, Tyrion ressalta uma ironia que o espectador já deve ter constatado a essa altura: todos eles foram inimigos dos Starks no passado, mas em algum momento de suas vidas, esse grupo lutou por eles, arriscando as suas vidas. Agora todos eles estão ali, no castelo dos Starks, prontos para morrerem junto a eles na batalha contra o exército dos Mortos. Essa cena é uma das muitas que resumem bem as qualidades desse episódio.

Conforme foi apontado no texto do episódio passado, teria sido fácil para os showrunners David Benioff e D.B. Weiss começarem a temporada com batalhas e dragões. Em vez disso, a dupla optou por iniciar a temporada não com um, mais dois episódios de preparação para a grande batalha de Winterfell, reservada para o já aguardado terceiro episódio. Pode parecer uma decisão anti-climática à primeira vista, ainda mais com uma temporada final de apenas seis capítulos, mas é compreensível numa revisão: o inverno chegou junto dos White Walkers, e o inferno cairá em cima dos nossos heróis, provavelmente levando muitos deles para sempre. Essa será a última vez que veremos tantos personagens reunidos, vários deles presentes desde o piloto em 2011, e cada um com a sua respectiva e emocionante jornada. Tudo deve acabar a partir da semana que vem.

Dirigido por David Nutter e escrito por Bryan Cogman, o episódio começa onde o anterior parou, com uma intervenção a Jaime pelos seus crimes cometidos contra os Targaryens e os Starks no passado. Daenerys e a maioria dos Starks (exceto Bran) não sabem o que nós sabemos sobre a transformação de caráter que o personagem sofreu no decorrer dos anos, então boas-vindas não eram realmente esperadas, ainda mais depois da notícia da traição de Cersei. Felizmente, Brienne tinha conhecimento de algumas dessas ações e conseguiu salvá-lo. As palavras de sua vítima Bran, porém, parecem sugerir que não haverá um final feliz para o ex-Comandante da Guarda Real: “Quem garante que haverá um depois?”.

Talvez o mesmo possa ser dito sobre Tyrion, que agora que ganhou mais um fracasso diante dos olhos de Daenerys, está mais perdido do que nunca e sem papel nessa guerra contra o sobrenatural. Seria Bronn (ausente nesse episódio) o carrasco de um deles, incentivando o outro irmão a se vingar de Cersei? Assim como na semana anterior, esse é foi um episódio de mais reencontros e despedidas. Verme Cinzento e Missandei, estranhos em uma terra estranha, cogitando retornar para Naath após o fim da guerra não parece ser um bom presságio para o casal. O mesmo pode ser dito no caso de Arya, que teve uma interação mais calorosa com o Cão (“- Por que você está aqui? Você nunca lutou por ninguém. – Eu lutei por você”) e Beric, além de um (potencial) último encontro com Gendry. Enquanto isso, Sansa e Theon, duas almas amarradas pela tortura física e psicológica que sofreram nas mãos de Ramsay, também se reencontram e protagonizam um dos momentos mais tocantes do capítulo. A sequência no salão de Winterfell foi excelente.

Desde as hilárias histórias de Tormund, passando pela bela canção de Podrick, também presente no livro de George R.R. Martin, que necessariamente remete a O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei. Foi igualmente emocionante Jaime finalmente fazendo Brienne se tornar oficialmente uma cavaleira, cena que foi a principal representação dos motivos pelos quais amamos a maioria desses personagens. Em vez de se remoerem antigos conflitos e rancores, os personagens simplesmente aceitaram resignados o seu possível destino e aproveitaram, ao melhor que podem, esses breves minutos de calor humano, paz e reflexão. Para uma série tão cínica, sombria e pessimista, Game of Thrones entregou aqui um dos seus momentos mais sensíveis e humanos. Mas antes da sua conclusão, o episódio ainda se dá ao trabalho de encerrar com uma nota agridoce, quando Jon revela a verdade sobre a sua paternidade para Daenerys.

O casal Jonerys é indiscutivelmente um dos pontos mais fracos da série, em parte pelo pouco tempo que a trama teve para desenvolver o romance, em parte pela falta de química notória entre Kit Harington e Emilia Clarke. Mas as consequências da revelação podem ser interessantes: a julgar pela reação de Daenerys, a ideia de ceder o seu trono para Jon é inimaginável e também há a questão da independência do Norte, que Sansa muito bem lembrou no início. Teria Game of Thrones coragem de apelar para uma conclusão ousada envolvendo um confronto entre os dois últimos Targaryens após (ou se) derrotarem os mortos?

“Jenny dançava com os seus fantasmas, aqueles que ela perdeu e aqueles que ela encontrou, e aqueles que ela amou mais”, diz um dos versos da canção de Podrick – ouça aqui a versão de Florence+The Machine. O Rei da Noite parece acreditar que a humanidade é digna de esquecimento. Com esse episódio mais íntimo, Nutter, Cogman, Benioff, Weiss e o elenco provam o contrário. Após dois episódios de preparação, agora chegou a hora da batalha, e que ela faça jus a todas as expectativas criadas.

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