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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Dilema é uma novela mexicana ruim disfarçada de série

Dilema, nova série do criador de Revenge estreou na última sexta-feira na Netflix com o chamariz de trazer a estrela docinema Renée Zellweger como protagonista. No drama de Mike Kelley conhecemos logo de cara a poderosa Anne Montgomery (Zellweger), uma bilionária do mundo de investimentos que demonstra, já na constrangedora cena de abertura, que é uma pessoa que vive sob o mantra “a qualquer custo” – título de seu livro.

De uma forma nada sutil ela se envolve na vida de Lisa Donovan (a fraca Jane Levy), uma bióloga que aparentemente descobriu um método de tratamento de doenças revolucionário, mas que luta para manter sua start-up de pé sem investimentos. Casada com o “marido-troféu” Sean (Blake Janner, péssimo), Lisa recebe de Anne a “proposta indecente” (qualquer semelhança com o filme noventista de mesmo nome não é coincidência) de “passar uma noite” com o cidadão em troca de um aporte de 80 milhões de dólares para subsidiar sua pesquisa.

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Mas Dilema mantém uma trama novelesca com reviravoltas óbvias pra tentar enganar o espectador de ocasião indicando que a história está sempre “avançando” e com um mistério a ser iminentemente revelado no episódio seguinte. Porém, seu desenvolvimento é pífio, as interpretações de todo o elenco são caricatas e resultam numa trama absurda, exagerada, piegas e completamente sem sentido. É o tipo de série que coloca uma rival “brincando” de arco e flecha gratuitamente e pontualmente na frente da outra, apenas para ter um take pra por no trailer.

Pra piorar, a produção ainda traz – no meio de um caos narrativo – duas tramas paralelas que nunca se cruzam com a história principal: a primeira de uma amiga de Lisa, Angela, que acaba envolvida com um médico psicopata e misógino (Dave Annable, numa performance vergonhosa) do hospital em que trabalha e a outra do irmão adotivo da cientista e seu namorado. O único denominador comum é que todas as situações envolvem “um grande segredo” que geram, veja só, “dilemas” (ou o famoso, “e se” do título original, What/If).

Todos os personagens são extremamente mal construídos, pois mudam de personalidade e motivações ao longo dos episódios (que se passam em um ínterim de poucas semanas) conforme as exigências do roteiro pedestre e repleto de furos. Basta ver, por exemplo, como o “Pai da Dolores” (Louis Herthum, de Westworld) age como Foster, o “capatás” de Montgomery Aliás, a quantidade de concessões que o espectador precisa fazer acerca das diversas “coincidências” é absurda (a chuva durante a viagem a Washington que deixa as protagonistas conveniente incomunicáveis em um momento chave da trama é um exemplo disso).

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Zellweger é um dos pontos fracos da série, numa atuação sempre unidimensional da protagonista e que impede que tenhamos empatia ou antipatia com ela. A atriz jamais consegue imprimir a mínima complexidade a Anne, limitando-se a fazer cara séria e bicos, algo que pelo menos diminuiria os problemas da personagem se estivesse nas mãos de uma intérprete mais talentosa (vide Glenn Close em Damages, por exemplo).

A direção novelesca e sem a menor inventividade também não ajudam. Dilema é filmada como um folhetim mexicano vespertino, com direito à todos os clichês do gênero – do personagem que, do nada, começa a falar com “fantasmas” até sequências de sonho “nada a ver” (o que foi Sean chorando no colo da milionária, gente?).

Mas talvez o pior elemento de Dilema sejam as tais “reviravoltas” que os realizadores imaginaram que seriam “brilhantes”, mas que se você pensar bem são meros artifícios pra disfarçar a quantidade de problemas da produção. Isso sem contar que a série introduz personagens novos sem qualquer cerimônia e apenas para criar entraves momentâneos (o policial na festa da escola e o “vilão”, descartando-os na mesma velocidade quando o texto não sabe o que fazer com eles.

O final, meu Deus, é um resumo do pior que a TV consegue oferecer, incluindo acontecimentos que não apenas desafiam a física, como também a lógica e a razão como um todo (e é impossível não antever a “grande” revelação lá para o 2º ou 3º episódio – são 10 de 50 minutos cada).

Que série ruim.

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