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Por: Allan Verissimo

Crítica | Game of Thrones 8×04: The Last of the Starks

Os mortos foram derrotados, mas os vivos ainda precisam lidar com os próprios vivos. Isso é o que Tyrion Lannister afirma em determinado momento do episódio 8×04 “The Last of the Starks”, durante o banquete de comemoração pelo fim da Longa Noite. E agora? Será que os sobreviventes, após terem passado por esse terrível pesadelo, perdoarão os rancores passados de uma vez por todas e viverão em paz? Talvez, se essa fosse outra franquia.

Em Game of Thrones, a resposta dos roteiristas David Benioff e D.B. Weiss é sempre pessimista e novas tramoias políticas e traições surgiram no decorrer dos 78 minutos desse episódio, que tem uma curiosa (e nem sempre eficiente) estrutura narrativa: a primeira metade é focada nos personagens lidando com a derrota dos White Walkers, ao passo que a segunda metade é focada no retorno à guerra contra Cersei Lannister. Em vários momentos, parece mais que os roteiristas mesclaram dois episódios em um só, já que ambos não casam bem um com o outro.

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Começamos com uma cena melancólica dos personagens se despedindo daqueles que não sobreviveram a batalha, com um bom trabalho do diretor David Nutter, do compositor Ramin Djawadi e do elenco (principalmente Turner, Clarke e Harington), ressaltando bem as trágicas consequências da vitória. Após isso, temos várias cenas de alegria e tristeza: Gendry é legitimado por Daenerys (que, ao mesmo tempo que faz uma generosidade, também tem uma segunda intenção de ganhar um fiel aliado) e se torna líder da Casa Baratheon, apenas para se decepcionar quando Arya rejeita sua proposta de casamento.

A heroína de Winterfell nunca foi e nunca será uma lady, por mais que os personagens ao seu redor pensem o contrário. Ainda restam dois nomes na sua lista, e ela terá a ajuda do Cão nessa missão. E por falar nele, também temos finalmente a sua primeira interação com Sansa desde a segunda temporada. Infelizmente, a cena, que deveria ser tocante, é prejudicada por um diálogo terrível que passa o pano em todo o abuso físico e psicológico que Sansa sofreu no decorrer da série. Já Jaime e Brienne finalmente se tornaram um casal, ainda que por pouco tempo.

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No meio de tudo isso fica cada vez mais claro para Daenerys como, mesmo com todo o seu poder, ela está alienada do que deveria ser o seu próprio povo (algo bem ilustrado por Nutter na cena na qual ela presta atenção em Tormund elogiando Jon pela sua bravura). O fato de que Jon é o único outro Targaryen além dela com uma forte pretensão ao trono não ajuda em nada, e não fica difícil imaginar a sua paranoia e medo caso essa informação seja revelada para o público (ainda que Jon não tenha qualquer interesse em ser rei, o mesmo não pode ser dito sobre os seus súditos…).


Infelizmente esse episódio parece estar disposto a testar os limites de Daenerys: em uma conveniência absurda do roteiro, uma emboscada de Euron (como ninguém viu aquela frota?) culmina em mais uma morte (anticlimática) de um dragão, Rhaegal, e no sequestro e assassinato da sua melhor amiga e conselheira, Missandei.

É um Deus Ex Machina às avessas que cumpre a função de jogar Daenerys no inferno, e que acaba culminando nos esquemas de Varys para traí-la e fazer Jon se tornar Rei. Suas ótimas conversas com Tyrion no episódio mostram muito bem que o eunuco muda de lealdade como um experiente político sempre que percebe uma vantagem – e o desespero de Tyrion para tentar convencer o “amigo” a não seguir em frente com o plano é tocante (inclusive, Dinklage devora a cena na qual apela uma última vez para a irmã, ao passo que Headey mais uma vez demonstra a arrogância e crueldade de Cersei apenas com o olhar e postura).

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Daenerys está realmente louca? Creio que não. Mas a sua jornada no decorrer dos oito anos da série mostra que a personagem é impulsiva e pode cometer ações moralmente discutíveis quando deixa sua raiva falar mais alto, como evidenciado na inesquecível cena da quarta temporada na qual ela ordena as crucificações de centenas de mestres em Meereen como retaliação às mortes das crianças escravas. Em várias ocasiões ela conseguiu conter seus impulsos tirânicos ao ser aconselhada pelos seus aliados. Daenerys já perdeu demais nessa reta final da série e Cersei finalmente apertou o último botão.

Em um episódio com bons momentos cômicos (Bronn finalmente mostrando a verdadeira face do mercenário canalha e sem coração que é para Jaime e Tyrion) e dolorosos (Jaime aparentemente virando as costas para sua última chance de redenção e Brienne), a jornada de Game of Thrones parece cada vez mais se encaminhar para um desfecho niilista em vez de novelesco. Ramsay Snow tinha advertido Theon (e os espectadores) há muitos anos que essa história não teria um final feliz. Resta saber se será satisfatório.

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