FOTO: HBO

Por: Allan Verissimo

Crítica | Game of Thrones 8×05 evidencia o desenvolvimento trôpego da temporada final

Pois é, aconteceu. Daenerys foi para o “lado sombrio” trazendo fogo e sangue para Porto Real como uma Targaryen, cometendo um genocídio no processo… Isso faz sentido no universo de Game of Thrones, mas “teoricamente”. No decorrer de suas oito temporadas, a série plantou e espalhou várias sementes que indicavam que o arco da personagem poderia culminar nesse momento.

Durante toda a sua vida, Daenerys foi maltratada por um irmão cruel que só queria reconquistar o Trono de Ferro da sua família. Após a morte desse irmão e o seu casamento com um guerreiro Dothraki e o nascimento de três dragões (que ocorreu graças a execução de Mirri Maz Duur, que queria vingar o massacre do seu povo pelas mãos dos Dothraki), presenciamos ela mostrando ter características impulsivas e problemáticas: quantas vezes ela não ameaçou queimar cidades? Vimos isso em Qarth na segunda temporada e nas cidades escravistas na terceira temporada.

FOTO: HBO

Na quarta temporada testemunhamos Daenerys crucificar centenas de mestres em Meereen em retaliação às crucificações de escravos; enquanto na quinta temporada a vimos executando mais mestres em retaliação aos ataques dos Filhos da Harpia. Também tivemos o massacre dos líderes Dothraki na sexta temporada e a execução do pai e do irmão de Sam na sétima, após se recusarem a dobrarem o joelho diante dela.

Por que então gritamos “Dracarys” nesses momentos enquanto aqui nós ficamos horrorizados diante das ações da pretensa rainha de Westeros? Bom, verdade seja dita, em todos aqueles momentos anteriores, as vítimas em sua maioria eram escravistas ou seres humanos horríveis, o que fazia fácil aceitar suas atitudes. Além disso, nunca a vimos fazer nada contra civis, embora as dicas dessa jornada sombria continuaram presentes, como um sinal amarelo para o que viria a seguir.

FOTO: HBO

Isso significa que o que ocorreu nesse episódio foi emocionalmente satisfatório? A resposta é não. Olhando em retrospecto, percebe-se claramente que a decisão dos showrunners David Benioff e D.B. Weiss em reduzir o número de episódios nas duas temporadas foi um enorme erro. Isso pode ter contribuído para o ritmo, mas em compensação, fez o desenvolvimento da reta final soar apressado e trôpego. Nesse episódio, o momento que deveria ser o grande ponto de virada do arco de Daenerys, e também o soco no estômago nos fãs, acabou soando dramaticamente vazio.

Mesmo com todas essas pistas jogadas, os roteiristas não conseguiram fazer soar crível a decisão da Não-Queimada de queimar as milhares de civis inocentes. Por que ela simplesmente não voou direto para a Fortaleza Vermelha para matar Cersei ao escutar os sons dos sinos de rendição? Não teria sido mais convincente (e trágico) se Daenerys tivesse tomado essa decisão porque o exército de Cersei recusasse a se render?

FOTO: HBO

Se tivéssemos tido mais episódios para deixar a trama e os personagens respirarem, teríamos comprado esse momento, assim como o fizemos com a morte de Ned Stark e o Casamento Vermelho. Do jeito que ficou, parece que Daenerys simplesmente ficou louca por causa dos sinos, e isso é lamentável, especialmente considerando que o episódio teve mais um show de direção de Miguel Sapochnik e do elenco.

O pavor e sofrimento da população de Porto Real diante daquela tragédia foi muito bem ilustrada pelo ponto de vista de Arya. A mulher que derrotou a ameaça dos White Walkers ficou incapaz de salvar qualquer pessoa na cidade da ameaça dos humanos, o que é uma triste ironia. Sapochnik também acertou ao não mostrar mais Daenerys após a sua decisão, focando apenas o dragão voando pela cidade, em uma pura atmosfera de horror.

FOTO: HBO

Também tivemos as mortes de Jaime e Cersei, unidos em seu relacionamento tóxico e abusivo (terminando com a mão de Jaime no pescoço da irmã, conforme previsto), enquanto o tão aguardado Cleganebowl foi visualmente bacana, apesar de em alguns instantes lembrar apenas uma fase de vídeo game. Dinklage, Coster-Waldau, Headey, Williams e Clarke (a performance dela nessa temporada é disparado a melhor de suas filmografias) fazem um belo trabalho, e Sapochnik quase consegue desviar a atenção do espectador dos momentos mais artificiais da trama (Euron Greyjoy sobrevivendo milagrosamente ao dragão apenas para lutar contra Jaime; o cavalo branco etc).

Há anos George R.R. Martin diz que o final de As Crônicas de Gelo e Fogo seria agridoce, citando O Retorno do Rei como exemplo. Se o que ocorreu nesse episódio também ocorrer nos livros (o que eu acredito que ocorrerá, porém melhor desenvolvido), fica possível entender a amargura desse desfecho, mas não a parte adocicada.

Os comentários estão desativados.

ss