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Por: Redação Ligado em Série

Visitamos a “Pitombas” de Cine Holliúdy – A Série, que estreia esta noite na Globo

Por Ederli Fortunato

Especial para oLigado em Série

O sol anuncia mais um lindo dia. Bem vindo a Pitombas, céu azul, praça, escola, casa do prefeito, igreja. Maravilhoso, não fossem as temperaturas ameaçadoras a qualquer atividade humana ou animal. Uma terra de sonho, já que Pitombas é, na verdade, a cidade de Areias no interior de São Paulo, quase divisa com o Rio de Janeiro, que no verão de 2018 virou cenário para as gravações de Cine Holliúdy – A Série. A produção estreia nessa terça, 7/5 na Globo e Globoplay, com direito aos moradores da cidade interpretando os cidadãos pitombenses.

Estrelada por Edmilson Filho, Cine Holliúdy conta a história de Francisgleydisson, um rapaz empreendedor que abre um cinema em Pitombas sonhando em ganhar a vida fazendo o que ama, negócio ameaçado pela mais nova investida do prefeito Olegário (Matheus Nachtergaele), uma TV instalada na praça da cidade. Misto de luta quixotesca e comédia, Cine Holliúdy é uma grande declaração de amor ao cinema, representada pela disputa de espaço entre tecnologias antigas e novas, com toques de crítica política.

Inspirado pela experiência de vida de seu criador, o diretor Halder Gomes, que assistiu a morte do cineminha de sua cidade após a chegada da TV, o universo de Cine Holliúdy nasceu em 2004 no curta “Cine Holliúdy – O Artista Contra o Caba do Mal”, que fez carreira em festivais de cinema no Brasil e no exterior. Nove anos depois, a história migrou para o formato longa metragem com Cine Holliúdy, que repetiu o sucesso, dessa vez batendo Titanic nas bilheterias do Ceará. Junto com Shaolin do Sertão, lançado em 2016 e Cine Holliúdy – A Chibata Sideral, que acaba de chegar aos cinemas, Gomes compõe um ciclo que vai da disputa entre cinema e TV, passa pelo advento do VHS e chega até a transformação das salas de cinema em igrejas na esteira da decadência do cinema de rua, falando ainda da produção marginal de filmes, com todo o enredo ambientado entre 1975 e 1982.

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Para a série, no entanto, o universo “halderiano” perde uma de suas características originais mais divertidas. Totalmente falado em “cearensês”, o curta que deu origem a tudo era apresentado com o acompanhamento de um glossário em papel criado e distribuído por Halder durante os festivais. Já como longa metragem, Cine Holliúdy foi legendado, “traduzindo” o cearensês dos personagens, o que acrescentava uma camada adicional de diversão, com a legenda algumas vezes explicando expressões, como “pega o beco” (ir embora) e em outras simplesmente mantendo a fala dos personagens, mas tornando-as mais claras como “eitabichiminguinorantezim” (eita bichinho ignorantezinho).

No seriado, o cearensês está presente, mas a legendagem caiu. Outra mudança aconteceu na vida amorosa de Francisgleydisson. Casado nos filmes, ele aparece solteiro na série para poder ganhar um par romântico, Marylin (Letícia Colin). Filha da Primeira Dama Socorro (Heloísa Perissé), Marylin é uma garota da cidade grande transplantada para Pitombas, o que não a agrada de forma alguma. Mas, a necessidade de subsistência obriga mãe e filha a fazerem de Pitombas seu lar, doce lar, com consequências inesperadas.

“Maria do Socorro chega em Pitombas casada com o Olegário. Ela foi importada de “Sumpaulo”, explica Heloisa Perrissé. “Ele é realmente apaixonado, encantado com aquele troféu que ele trouxe de São Paulo. Mas ele de certa forma é um troféu pra ela também”, continua a atriz após um dia de gravação. “Quando a filha reclama, ela diz meu amor, isso aqui é muito melhor do que a kitchenette que a gente vivia no Tucuruvi”.

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O posto de primeira dama, com todos os penduricalhos, é o que Socorro sempre sonhou ter e ao longo da série, Pitombas deixa de ser apenas um caso de sobrevivência e se torna uma carreira, a exemplo do que acontece com outras esposas de políticos. Para Marilyn, Pitombas é também uma descoberta. “Ela se descobre atriz”, explica Leticia Colin, que interpreta a personagem criada especialmente para a série e que chega à cidade defendendo a TV, mas se transforma numa ferrenha apaixonada pelo cinema.

A Sombra do Outro Prefeito

Exagerado, cheio de si, folclórico, um pouco ridículo, Olegário (Nachtergaele) é o prefeito de Pitombas e autor do projeto de colocar uma TV na praça da cidade. Impossível não lembrar de Odorico Paraguaçu, criação de Dias Gomes em O Bem Amado e sátira-mor dos nossos políticos, que vêm fornecendo amplo material para a ficção desde quando Thomaz Antonio Gonzaga desancou o prefeito da então Vila Rica nas Cartas Chilenas, ainda nos tempos da Inconfidência Mineira.

A inspiração, me parece, evidentemente é essa”, reconhece Nachtergaele, com quem também conversamos durante as filmagens em Areias.

Nós procuramos traçar um caminho novo dentro do arquétipo conhecido do prefeito corrupto, governante corrupto que está presente não só em Dias Gomes, em várias obras, não só no Bem Amado. Acho que O Bem Amado coroa essa figura do prefeito corrupto dos Brasis todos, um pouco a ideia de que toda cidade do Brasil é um pouco o interior, onde tudo pode, e essa ideia do governador arquetipicamente corrupto. Parece estranho falar nisso agora. Essa coisa toda da Lava Jato diz respeito a isso, e é uma tentativa desesperada do Brasil de acabar com esse arquétipo. Mas ele permanece vivo pelos interiores e essa figura está presente não só, como eu falei, no Bem Amado, mas em muitas obras da literatura do Dias Gomes e dos autores brasileiros”, analisa o ator, que também aponta as diferenças entre os personagens.

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Nós nos demos a liberdade de criá-lo de outra forma. Eu achei que era bonito incorporar a malandragem fisicamente. É um cara, que ao contrário dos outros prefeitos, como feito pelo Nanini, que eu vi de perto (Marco Nanini, que interpretou Odorico no longa O Bem Amado), o grande Odorico, eles se vestiam de terno e gravata, um pouco disfarçando quem são e eu decidi juntamente com a arte e a direção assumir, desvestir esse “velcro”. Então ele é um cara que exibe, um playboy que exibe suas pratas, ele arruma seus cabelos, ele mostra, ele quer estar à vontade com o povo. Isso eu já vi pelos interiores por aí, ele quer estar perto do povo, como se ele fosse povo, mas que quer deixar alguns sinais de que não é povo, isso também já vi muito por aí nas minhas andanças. Então o relógio é um Rolex, as pratas são pratas. Então, sou bem parecido, mas não sou vocês. E tentei piorar um traço que é característico dos Odoricos que é uma linguagem afetada demais, e que se torna errada. O Odorico sempre fala erradamente, ele tenta afetar tanto a fala dele, que ele fica quase incompreensível, então eu fiz uma assumição da ignorância do Olegário. Olegário é o mais ignorante dos personagens da série, é o cara que não sabe falar português, é o cara que não leu um livro, é o cara que ostenta, tem poder, é corrupto, mas é o mais ignorante dos habitantes de Pitombas e isso deu talvez características novas para essa figura arquetipal”, completa Nachtergaele.

Edmilson Filho também aponta a realidade dos personagens da série. “Eu não considero nada caricato no Cine Holliúdy porque todos eles existem. Se você for ao interior do Nordeste, você vai ver isto, não é caricato, existe aquele cara que é o bêbado da cidade, existe o doido”, aponta o ator, reforçando a conexão do universo Cine Holliúdy com o público. “Várias produções, elas trazem um nordeste meio sintético, que não representa ninguém, nem o cearense, nem o baiano, nem o pernambucano, ele traz um nordeste que você acha que é universal, mas não é”, segue ele lembrando as diferenças de sotaque e cultura de cada estado. Diferenças que costumam desaparecer, trocadas por um sotaque “genérico” em especial nas novelas ambientadas no nordeste.

Sobre essa realidade, Cine Holliúdy constrói uma homenagem ao cinema, com cada uma dos dez episódios dedicado a um gênero e a presença de convidados especiais, como Miguel Falabella e Ney Latorraca. “A gente vai trabalhar com vampiro, com assombração, com extraterrestre”, lista Edmilson Filho, conectando a série ao realismo fantástico.

Sem perder a diversão e o lirismo, Cine Holliúdy reencena o debate tecnológico que seguidamente nos afeta. Muito antes do público considerar as redes sociais como fonte de notícias, gerando anúncios da morte do jornalismo fundamentado, a TV travou um combate pela atenção do público com o rádio e o cinema, só para hoje ser ameaçada pelo streaming. “A TV continua ameaçando o cinema e agora a internet ameaçando a TV e o cinema, então a gente pode brincar com essa coisa, isso me encantou. O cinema é o sonho do Francysgleidisson, que é um homem da terra. Um sonho de viver com as capacidades criativas do nosso povo”, analisa Matheus Nachtergaele. “E a TV vem como sendo o objeto pra que se possa manipular, pra que se possa ganhar poder, bestializando uma população. Muito óbvia a fábula, mas me parece muito linda”, completa.

A diferença é que hoje o cinema, ele se tornou um programa mais restrito porque hoje todo mundo é portador de tela, todo mundo tem uma tela. É um negócio muito poderoso, quando você para pra pensar, todo mundo é portador de uma tela em que ele pode ver o que quiser”, explica Halder, “talvez essa seja, não digo a ameaça do cinema, o cinema está lá se mantendo, mas seja o maior desafio, você tentar tirar uma pessoa dessa zona de conforto pra pagar um ingresso pra ir ao cinema”, completa.

Para Edmilson Filho, a vitória desse desafio está naquilo que o cinema tem de único.

O cinema nunca morre. Eu sempre acredito que o cinema nunca vai desaparecer, está sempre se reinventando. Se você for ao cinema hoje, você vai ter o 3D, vai ter o IMAX, vai ter cadeira que começa a mexer, que são sensações que você não tem em casa, para ver numa tela no celular, no streaming ou no computador. A gente está passando por modificações, mas pessoas que são realmente fãs dos filmes de cinema, o cara não vai preferir ver Star Wars no computador ou no celular, vai querer ver no cinema, que é outra experiência. O cinema te dá isso, a experiência de sair com os amigos, comprar pipoca”. Para o protagonista do universo Cine Holliúdy, “Francysgleidsson venceu”.

Uma batalha que Halder Guimarães, que dirige a série em parceria com Patricia Pedrosa e Renata Porto D’Ave, conseguiu transformar em comédia, apesar do triste espetáculo que uma sala de cinema fechada significa para o Franscisgleydisson que vive dentro de cada amante da telona. “É pra gargalhar, é Auto da Compadecida com Trapalhões”, resume Matheus Nachtergaele. Ou, em bom “cearensês”, é fuleragem.

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