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Por: Bruno Carvalho

Crítica | La Casa de Papel retorna repetitiva, mas engenhosamente divertida

Era inevitável. Após o estrondoso sucesso que a minissérie do canal espanhol Antena3 ganhou em sua exibição mundial pela Netflix, La Casa de Papel foi renovada para a 3ª e 4ª partes, agora sob o selo 100% original da gigante do streaming. O drama criado por Alex Pina não tinha lá muito motivo criativo para retornar, mas o receio que o público tinha de que iriam “estragar” a série, pelo menos, foi descartado, como pude conferir nos episódios que a empresa nos adiantou antes da estreia desta sexta-feira, 19, às 4 da manhã na popular plataforma.

Dois anos se passaram após os eventos vistos na leva original e agora os sobreviventes do maior “atraco” da história da Espanha vivem escondidos do mundo em locais remotos, separados por casal. Porém, quando Rio (Miguel Herrán) é recapturado pela polícia, cabe a Tóquio (Ursula Corberó) acionar o Progessor (Álvaro Morte) para reunir a turma e resgatar o colega.

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A premissa, como podemos perceber, não é nada inovadora, mas é bem estabelecida para “vender” a ideia de uma reunião do grupo e acaba ampliando a escala dos acontecimentos. Agora, a máscara de Dalí virou uma espécie de símbolo de resistência ao “sistema” vigente em nível global, da mesma forma vista em V de Vingança e Mr. Robot. Há também um propósito maior: lutar contra a violência policial e tortura, num plano que envolve – por óbvio – um novo e maior assalto.

La Casa de Papel, contudo, retorna bastante repetitiva, emulando diversas situações, dinâmicas e conflitos que já vimos na minissérie. Felizmente o roteiro de Pina aliado à montagem sagaz faz com que a narrativa – sempre fluida entre passado, presente e futuro – se mantenha engenhosa e irresistivelmente divertida de se acompanhar, aliada à empatia que já desenvolvemos por aqueles adorados personagens.

O drama ainda consegue fazer rir nos momentos certos, criar doses enormes de tensão e até mesmo entregar algumas surpresas – como uma razoável justificativa para a “volta” de Berlin (Pedro Alonso) -, e até mesmo a necessária, mas orgânica introdução de novos personagens. Há também um grau de dificuldade maior sobre o novo assalto, mas não posso dar maiores detalhes antes da estreia (foi a única condição exigida pela Netflix).

Mas pra mim o melhor de La Casa de Papel continua sendo o fato de que a série consegue entregar diversão de qualidade, mesmo com tanta (mais tanta) “galhofagem”, graças à suspensão da descrença bem construída desde o primeiro episódio. Assim, mesmo sabendo que muitos dos acontecimentos, coincidências e conveniências de roteiro são exageradas e impossíveis, conseguimos relevar tudo isso e curtir sem questionar, por exemplo, a geniosidade ímpar do Professor, a incompetência absurda da polícia, os flashbacks estrategicamente pincelados para explicar as reviravoltas etc.

O mérito maior de La Casa de Papel é o de funcionar muito bem, mesmo quando analisando individualmente, quase nada faz sentido lógico ou até mesmo prático. Isso porque nós conseguimos torcer pelo sucesso daquele grupo a qualquer custo, já que na verdade todos nós já sonhamos em por a mão em tanto dinheiro e fugir para uma praia deserta longe dos problemas. No fundo, é isso que a série traz: uma deliciosa fuga da nossa maçante e às vezes desencorajadora realidade.

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