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Por: Bruno Carvalho

Crítica | A desnecessária 3ª temporada de 13 Reasons Why

Convenhamos: não existia nenhum motivo criativo para 13 Reasons Why ter continuado após a primeira temporada. Trata-se de algo puramente comercial, já que surpreendentemente esta produção ainda rende para a Netflix. E não se enganem: não sou daqueles que acha que o que é puramente popular ou rentável é necessariamente ruim. A própria Disney e suas produções são um exemplo disso.

Ambientada após mais um desagradável incidente mostrado ao final da 2ª temporada, envolvendo abuso sexual e uma vassoura, o drama teen baseado na obra de Jay Asher apelou nos mais recentes capítulos para a batida narrativa whodunnit (quem matou?) tomando, no caminho, mais uma série de decisões irresponsáveis pelas mãos do roteirista e criador Bryan Yorkey.

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Ele basicamente criou um universo escolar onde praticamente todo mundo é um criminoso ou, no mínimo, um contraventor penal, arrastando por longos 13 episódios uma “investigação” absurda e terrivelmente falha do ponto de vista lógico, apenas para preencher o necessário tempo de tela e ao final responder “Quem matou Bryce Walker?”.

Pra isso ele continua contando com os personagens de sempre, mas agora bem mais unidimensionais como o Clay (do talentoso Dylan Minette, LOST), a Jessica (da igualmente competente Alisha Boe) e um bando de adolescentes-padrão que se revezam no papel de “culpado” da vez até chegar no verdadeiro(a). O roteiro encarrega-se de passar cada capítulo apontando dedos em vários dos suspeitos (pois todos aparentemente são homicidas potenciais e queriam matar Bryce) num cansativo exercício de flashbacks e flashforwards extremamente convenientes, evidenciando a pobreza do texto e até mesmo uma falta de planejamento minimamente coerente.

Assim, não raro vemos personagens discutindo algo em determinada locação para que vejamos em seguida as mesmas pessoas nos mesmos locais meses antes acrescentando pistas que, muitas das vezes, jamais nos levam a uma recompensa. Se tal recurso de flashbacks funcionou bem na 1ª temporada para indicar as interações dos jovens com a falecida Hannah Baker (Katherine Langford, não mais presente na série por óbvio), aqui soa exagerado e muitas vezes sem propósito, como a própria atração.

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Para “compensar” a falta de Hannah, os produtores tiveram a excelente ideia de introduzir uma nova personagem como narradora (em vez de usar o próprio Clay): a irritante Ani (Grace Saif), que mais deveria se chamar Oni, de tão artificialmente onipresente, mesmo recém chegada nesta hostil comunidade. Mais patética ainda é a decisão de pintar Bryce como um garoto “arrependido” pelos seus crimes de abuso, agressão e estupro, chegando ao cúmulo de colocar o personagem para gravar uma fita cassete com sua confissão/redenção final.

Não, não vou dar spoilers sobre quem foi que matou o rapaz na série, mas posso dizer que a “grande” revelação é tão estúpida e anti-climática como a própria série virou após se desvincular do seu material de origem e buscar desesperadamente cliffhangers para manter a chama viva. É perfeitamente possível, aliás, assistir apenas ao primeiro episódio desta temporada e pular direto para o último, já que Yorkey decide, no desfecho, resumir as 12 horas de embromação e tramas paralelas que não levam a lugar algum num monólogo expositivo para a polícia mais incompetente desde aquela vista no condado de Manitowoc de Making a Murderer.

13 Reasons Why é um exemplo claro do que pode ocorrer com uma atração que está em sobrevida, como muitas por aí, mas com a desvantagem de já ter causado problemas sérios no mundo real com a forma em que trata temas tão delicados.

Sim, a série está renovada para a 4ª e última temporada, mas deveria ter parado lá na primeira.

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