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Por: Bruno Carvalho

Crítica | A alucinante e imperdível adaptação de Watchmen da HBO

Damon Lindelof está longe de ser um realizador uníssono ou unânime, mas é (co)responsável por duas de minhas séries favoritas. Criativo, arrojado, corajoso, ele costumeiramente arrisca, mas sempre entrega algo diferente do status quo. Assim, é com satisfação que recebi a notícia de que ele comandaria uma nova adaptação da HQ Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons (de 1986), logo depois de ter alterado o panorama da TV com LOST e também não apenas adaptado, mas também criado três excelentes temporadas em cima do best seller de Tom Perrotta, The Leftovers (e é uma pena que esse drama simplesmente sumiu da HBO GO).

Assisti aos dois primeiros episódios da nova grande estreia da HBO, o primeiro que vai ao ar neste domingo, 20 de outubro, às 23h com sinal liberado na Claro. Sob um forte embargo anti-spoilers (acredite, em apenas dois capítulos acontecem reviravoltas que outras produções entregariam ao longo de temporadas), saí da projeção maravilhado com praticamente todas as decisões criativas, sejam as que mantém a aura da obra original (falo da HQ, não do filme de Zack Snyder), como àquelas que se distanciam, mas sem jamais deixar de saudá-la.

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Diferentemente do filme de 2009, que gosto muito, aqui Lindelof optou por um caminho bastante diferente, mas que faz um link – eu diria – necessário com o mundo de hoje. Se na década de 1980 as preocupações sociais giravam em torno de um mundo imerso em Guerra Fria, na série ambientada nos dias atuais na inusitada cidade de Tulsa (em vez de Nova York ou Los Angeles), a discussão segue politizada graças à ascensão de grupos extremistas ao redor do mundo.

Não é, e aviso de cara, uma série que será didática. Tal qual LOST e mais como The Leftovers, Watchmen não coloca todas as cartas na mesa nestes primeiros episódios (e nem traz alguns dos personagens lendários), apenas contextualizando para o espectador a realidade semi-alternativa em que a narrativa é inserida, começando com o flashback de um caso real na mesma cidade na década de 20, quando a Klu Klux Klan dizimou parte da população negra, que se rebelou no evento que ficou conhecido como A Rebelião Racial de Tulsa.

Com Rorschach morto pelo Doutor Manhattan, novamente exilado em Marte, o ator Robert Redford como presidente há vários mandatos (após os EUA vencerem a guerra do Vietnã) e o enigmático Ozymandias, a não tão distante versão da América sofre mais um revés com o surgimento de uma nova ameaça, a Sétima Cavalaria (não coincidentemente um grupo de supremacistas brancos) que fez com que a polícia – agora obrigada a andar mascarada – se unisse aos vigilantes outrora banidos.

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É notadamente uma série carregada com discussões sérias – violência policial, intolerância, racismo – (como ocorria na HQ de Moore) embaladas num show que mescla ação de tirar o fôlego liderado por Angela (codinome Sister Night), no que provavelmente é a melhor atuação da carreira de Regina King (Seven Seconds), uma fotografia perfeita e uma trilha enérgica.

Para os não-iniciados nos quadrinhos, haverá sim a perda de referências, mas não de contexto, já que a trama caminha sustentando-se em si em vez de recriar as histórias vistas nos 12 volumes do material original. Assim, é indispensável saber exatamente quem é quem, pois a série gradativamente vai nos apresentando cada personagem.

Neste domingo começaremos a testemunhar o que parece ser o início do caos e não estranhamente existem toques de Westworld, Família Soprano, Game of Thrones e, claro, de LOST e The Leftovers nesta que promete ser uma das melhores séries de 2019 e, provavelmente, dos últimos anos.

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