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Por: Bruno Carvalho

Crítica | Cara x Cara é uma divertida e descompromissada série com Paul Rudd

Não é uma ideia original, convenhamos. Há décadas filmes, séries e até novelas já brincaram com o conceito de clonagem, seja numa pegada séria (lembram-se de O Clone?) ou em tons mais cômicos (Eu, Minha Mulher e Minhas Cópias). Mas esta nova Cara x Cara (tradução horrível que a Netflix arrumou para Living with Yourself) estrelada por Paul Rudd (Homem-Formiga e a Vespa) traz um quê de frescor à temática contando a história de Miles, um sujeito deprimido, com problemas no emprego e com o casamento em frangalhos. É aí que ele decide testar um tratamento “inovador” num spa indicado por um colega.

Mas é aí que, na verdade, descobre que acabara de ser clonado em uma clínica clandestina que promete uma “reorganização de DNA” para torná-lo uma versão melhor de si mesmo, quando o que ocorre na prática é que eles simplesmente matam seu eu “corpo” antio e colocam o novo no lugar com todas as características físicas e memórias reimplantadas. Por algum erro, por óvio, o original continuou vivo e agora há dois Miles soltos por aí.

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Apesar da pegada aparentemente “sci-fi”, Cara x Cara (sério, que título ruim) adota um tom de dramédia, tratando da situação em nível bastante individualista e criando situações tragicômicas quando a simples existência de uma cópia “melhorada” de si mesmo começa a trazer não apenas os problemas éticos e morais que o tema carrega, mas também uma logística difusa e de certa forma perturbadora.

A série é deliciosamente estruturada em forma de flashbacks, flashforwards e múltiplos pontos de vista de todos os personagens: não apenas Miles e seu clone, mas também de sua esposa Kate (a ótima Aisling Bea, de The Fall), além de ser povoada por ótimos personagens secundários como Dan (o excelente Desmin Borges, de You’re the Worst), rival de Miles no trabalho e sua irmã Maia (Alia Shankat, de Arrested Development).

Mas o melhor de Cara x Cara é Paul Rudd, que assume o difícil papel de interpretar dois personagens bastante parecidos, mas com diferenças pontuais (que deve ter resultado em um trabalho de logística de gravações cansativo). Ademais, o roteiro do showrunner Timothy Greenberg (The Daily Show) frequentemente opta por trazer situações bastante inusitadas, mesmo para uma série sobre uma clonagem que deu errado.

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É fato, contudo, que a atração se beneficiaria de um desenvolvimento melhor dos personagens secundários, em especial Kate (que fica de fora de boa parte das cenas, quando não deveria), mostrando como a situação a afeta diretamente. Senti falta também de explicações mais convincentes para alguns furos de roteiro que, apesar de inevitáveis numa série com esta temática, poderiam ser melhor tapados (Miles rotineiramente deixa o emprego sem nenhuma consequência, toda a trama sobre o pitch na agência é abandonada sem explicação) e o desfecho desta primeira temporada (que fica em aberto) soou abrupto e com um desenvolvimento apressado.

De toda forma, Cara x Cara é o tipo de série com uma pegada própria (estilo Boneca Russa) que a TV está precisando em vez de ser mais do mesmo. Seus episódios são curtos, sempre terminam com bons ganchos e dá pra ser consumida de forma rápida e descontraída. Vale o play. 

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