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Por: Bruno Carvalho

Crítica | The Crown e sua 3ª temporada executada à perfeição

Quando Brumadinho sofreu a terrível tragédia, uma das mensagens que o povo brasileiro recebeu foi a de condolências de Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II. Isso porque, conforme veremos na 3ª temporada de The Crown, que estreia neste domingo (17) na Netflix, o Reino Unido teve um episódio similar em 1966 quando uma montanha de rejeitos de carvão matou 144 pessoas na cidade de Aberfan, em Gales.

“A Coroa somente realiza visitas a hospitais, nunca a locais de acidentes.

Diálogo de Olivia Colman em The Crown

Naquela ocasião, pressionada a visitar a cidade afetada e oferecer pessoalmente suas condolências aos sobreviventes e famílias das vítimas, a Rainha não o fez de imediato, externando que aquele simplesmente não era o que se esperava da Coroa.

Futuramente, a Elizabeth II declarou oficialmente que não ir até a cidade de Aberfan imediatamente (ela o fez apenas uma semana depois, debaixo de inúmeras críticas do parlamento, do povo e da imprensa) foi o seu maior arrependimento em vida.

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Acompanhando o período que precedeu ao Jubileu de Prata, essa 3ª temporada traz Olivia Colman (Broadchurch) no papel da regente, dando sequência ao excelente trabalho de Claire Foy (A Garota na Teia de Aranha), mas criando uma versão própria e com contornos ainda mais aprofundados sobre uma “servidora pública” que jamais pode se exonerar do cargo sem trazer consequências devastadoras para si, para sua família e para a sua Dinastia.

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Vivendo cada vez mais isolada e ciente do fardo que a Coroa passou a ter, ela embarca numa luta silenciosa, não apenas para justificar seu posto, mas também sua própria existência, já que fora obrigada a abdicar de sua própria individualidade e até mesmo de seus sentimentos humanos para servir a este “ideal” de realeza. O mesmo aconteceu, em níveis distintos, com os outros personagens dessa história, como seu marido Philip (Tobias Menzies) e, especialmente, sua irmã Princesa Margaret (Helena Bonham Carter).

Enfrentando o período mais difícil de seu período como Rainha, Elizabeth II surge resignada à sua posição de figura icônica cada vez mais diminuta em termos de importância política, notadamente quando o novo Primeiro Ministro de esquerda, Harold Wilson (Jason Watkins), é eleito, carregando consigo a mensagem de que os súditos não engolem mais a pitoresca existência da Família Real e seus privilégios.

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Mas se há um mérito em The Crown é o fato de que a série consegue, com propriedade, contar uma história comovente, instigante e bastante próxima da realidade e até fazer com que o público torça por aquelas pessoas, ainda que o conceito de monarquia seja cada vez mais incabível no mundo moderno. Isso porque mesmo longe de serem anti-heróis nesta trama (e há um patente padrão histórico de crueldade e frieza na Dinastia Windsor), os membros da realeza são retratados e moldados com e graças aos problemas e dilemas que enfrentam, apesar do que representam.

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A temporada, assim como as anteriores, cria em cada um dos seus episódios elipses temporais que, tematicamente dedicados a cada um dos personagens centrais, trazem uma correlação sempre brilhante e inusitada com momentos-chave. Assim, a bem-sucedida missão da Apollo 11 em julho de 1969 casa perfeitamente com a crise de meia idade sofrida por Philip; o desejo anti-monárquico dos galeses dizem muito sobre o isolamento sofrido pelo herdeiro aparente, Charles (Josh O’Connor), coronado como Príncipe de Gales e, claro, as diversas intempéries sofridas por Elizabeth e os devastadores acontecimentos sociais da época, incluindo uma tentativa de golpe militar pelo seu próprio primo, situação que ela conduz com a elegância, discrição e firmeza esperada de uma grande Líder.

The Crown apresenta aqui uma temporada executada à perfeição, não somente em seus aspectos técnicos e visuais, como as roupas, locações e cenários grandiosos, mas também por saber aproveitar esse conturbado período para retratar as intempéries da própria Rainha e da Coroa com um olhar analítico e preciso, graças à equipe do historiador e produtor Peter Morgan, o maior especialista vivo na Família Windsor.

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Não obstante ser uma obra ficcional, The Crown adquire contornos de um quase-documentário, com uma cavalar dose de licença poética, é verdade, ao “imaginar” o que acontece por trás das portas e paredes do Palácio de Buckingham. Esta é, inegavelmente, uma das produções modernas mais interessantes e bem-sucedidas no que se propõe, resultado de um esforço descomunal dos sempre excelentes atores, dos roteiristas e técnicos, que se dedicam para nos trazer uma série atemporal e com apelo universal, mesmo abordando a vida de um grupo tão seleto e específico.

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