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Por: Bruno Carvalho

Crítica | The Witcher: uma embaraçosa e involuntária paródia medieval

A adaptação televisiva de uma obra literária inevitavelmente vem com uma carga de expectativa, tanto dos realizadores quanto dos fãs. A Netflix, aqui, claramente optou por investir neste material porque ele traz consigo certa tração, ainda que de uma nichada base, tal qual a HBO fez lá atrás com Game of Thrones e que acabou vingando. Assim, é óbvio que a estratégia é tentar replicar o sucesso comercial recente do drama épico de D.B. Weiss e David Benioff.

Uma adaptação, seja ela qual for (de livros, games, HQ etc.), precisa funcionar de forma independente do produto de origem, já que estamos falando de meios (e até públicos) diferentes, ainda que haja uma interseção de parte deles. Mas o triste é que The Witcher, na maior parte do tempo, não funciona. A história, apesar de não ser complexa, é apresentada logo nos primeiros episódios de forma confusa e com um desfile sem fim de nomes e lugares que, pra quem não é iniciado neste universo, sequer tem tempo de ancorar tudo e processar.

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Centrado no caçador de monstros Geralt de Rivia (Henry Cavill), o drama é ambientado no mundo chamado de Continente, onde humanos, elfos, bruxos, gnomos e monstros lutam para sobreviver e prosperar e onde o bem e o mal “não são facilmente identificados”, segundo a sinopse. Não há, contudo, um fio condutor da narrativa, que salta entre cenas e localidades de forma errática e sem coesão e sem apresentar ou desenvolver bem (ao menos na TV) as motivações de seus inúmeros personagens, inclusive as mais presentes, como a bruxa Yennefer e a Princesa Ciri (esta última que por vezes ativa inadvertidamente uma certa assistente virtual em dispositivos próximos).

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Falando em Geralt especificamente, é impossível não se decepcionar com a atuação embaraçosa de Henry Cavill (Liga da Justiça) como o bruxo. Apesar da perfeita caracterização e visual, o ator percorre praticamente todas as suas cenas com uma inexpressividade aquém do que é de costume (convenhamos, ele jamais foi um grande intérprete), sempre murmurando suas falas num mesmo timbre baixo. Ainda que esta seja a característica do personagem, o ator parece incapaz de modular sua atuação para as diversas situações que demandam algo a mais (como na cena na casa do prefeito). Ademais, a série precisava incorporar melhor esta característica dos ‘bruxos’ (sem escorar na necessidade de conhecimento prévio dos livros). Seus únicos momentos marcantes – que se confundem com os da série, inclusive – são as sequências de luta com espadas, tecnicamente impecáveis, visualmente empolgantes e que demonstram um domínio absoluto da mise-en-scène.

A ambientação do Continente, aliás, emula uma versão mais barata da Westeros de Game of Thrones. Poderia-se argumentar que o aspecto de produções “medievais” é parecido, mas a “inspiração” é tão grande, que já no primeiro capítulo temos uma cena de queda que é enquadrada e executada da mesma forma que o suicídio de Tommen em Porto Real (que também ganha sua versão quase idêntica aqui) e há até mesmo um Astrolábio (a estrutura giratória da abertura da série da HBO e da biblioteca da Cidadela) flutuando em um baile no terceiro episódio.

O design de produção também é inconstante, chegando a ter locações onde é possível ver iluminação em tiras de led (note o chão do baile), contrapondo com ambientações em “campos” genéricos, sem contar nos efeitos (alguns eficientes, outros risíveis, como o próprio astrolábio que mencionei). Mas o maior ponto fraco de The Witcher é o seu roteiro sem foco e sem ritmo que não direciona o caminho da trama e das personagens e não consegue ser inventivo até mesmo com tanto material de origem à disposição. A série somente começa a engrenar do 5º episódio em diante (sendo o 7º o único mais bem estruturado). Além disso, o texto não decide que “linha” a seguir, alternando entre cenas em que tenta passar um peso dramático excessivo ou não sustentado, para outras que beiram o humor pastelão involuntário.

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Há também um número interminável de situações desnecessárias (por episódio) e que denotam uma falta de critério ou bom senso da criadora Lauren Schmidt (Defensores) e do time de roteiristas sobre o que portar dos livros para a TV, e como (das cenas do irritante Jaskier até outras que os espectadores imediatamente identificarão, como uma mega orgia banhada a fumaça de gelo seco). Por vezes, parecia que eu estava assistindo, na verdade, a uma paródia de The Witcher, com direito a overacting, diálogos expositivos e muita cafonice (em determinado instante, o bardo realmente fala ‘olha eu de novo recitando exposição [narrativa]). Ainda que esta fosse a intenção (não é), o resultado é uma série arrastada, sem personalidade, dotada de um humor quase sempre sem timing e que tem muito pouco a contar mesmo após 8 longas horas investidas.

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