FOTO: LIFETIME

Por: Bruno Carvalho

Sobreviver a R. Kelly é um documentário devastador e indispensável

Em 2019 um dos melhores documentários foi Sobreviver a R. Kelly (Surviving R. Kelly) do canal Lifetime. Em seis devastadores episódios, a minissérie percorre os perturbadores relatos de abuso sexual, físico e pedofilia do astro da música R&B pelo olhar de algumas de suas vítimas, incluindo sua ex-mulher Andrea Kelly, aqui auto-identificadas como sobreviventes. Mais que uma peça meramente acusatória, tendo em vista que os fatos escusos que permeiam a carreira do cantor são notórios e registrados – de perambular perto de escolas e shoppings, envolver-se com a falecida cantora Aaliyah quando ela tinha apenas 13 anos e até criar um culto sexual com menores -, o documentário realiza um profundo estudo, inclusive com a ajuda de psicólogos e especialistas, sobre como a sociedade permitiu que tal comportamento prosperasse impune até os dias de hoje, notadamente pelas vítimas serem majoritariamente negras.

Impossível, aliás, não traçar um paralelo entre Sobreviver a R. Kelly com o igualmente avassalador Deixando Neverland da HBO. Tal qual os relatos das vítimas de Michael Jackson, R. Kelly também utiliza a técnica de grooming para atrair suas vítimas, mas aqui com a promessa de ajudar em suas aspirantes carreiras de cantoras. A diferença principal, e que a produção de Nigel Bellis (Murderous Affairs) e Astral Finnie (United Shades of America) destaca muito bem, é que os malfeitos de Kelly estão muito mais documentados (inclusive pelo próprio predador sexual), que os de Jackson, além de Kelly estar vivo (ele nega tudo) e continua supostamente comentendo seus crimes. Há, também, uma infinidade de vítimas que – até hoje – estão desaparecidas de suas famílias no “culto sexual” que afirmam que ele mantém.

Alvo de diversas campanhas como #MeToo e #MuteRKelly, o mais impressionante desta atração é, contudo, presenciar quão malicioso R. Kelly é até quando está dentro dos holofotes, chegando a inserir em suas próprias músicas trechos que mostram quem ele realmente é, se “escondendo em plena luz do dia”. Há, aliás, diversos alertas de gatilho por todo o documentário, devido a linguagem e ao conteúdo apresentado, e em muitos instantes precisei pausar antes de poder continuar (os momentos em que uma das mães desesperadamente busca por sua filha em um hotel ou quando uma das vítimas retorna a um dos quartos em que era mantida são de revirar o estômago).

Esta noite, 2 de janeiro, estreia nos EUA a Parte II do documentário, intitulado Surviving R. Kelly: The Reckoning (Sobreviver a R. Kelly: O Acerto de Contas, em tradução livre). Assista ao trailer:

Desde que foi ao ar no começo de 2019, o cantor desapareceu das redes sociais e diversas ações judiciais buscam indiciá-lo pelos crimes, incluindo uma do mês passado, por ter falsificado documentos para se casar-se com Aaliyah aos 15 anos. Infelizmente, desde o primeiro julgamento onde ele saiu livre por supostamente ter feito um acordo com a família de uma de suas vítimas menor de idade (a que aparece sendo urinada no rosto por ele em um vídeo caseiro), Kelly tornou-se muito bom em se manter nos limites da Lei – seja abordando garotas jovens (ou melhor, “pequeninas“, como ele mesmo admite que gosta) logo após atingirem a idade de consentimento para evitar a presunção de estupro, seja criando um sistema onde suas vítimas são impossibilitadas de conversar com terceiros ou portar aparelhos celulares. Todas, relatam, são obrigadas a chamá-lo de “papai” e obedecer a um restrito conjunto de regras até mesmo para receberem alimento, enquanto vivem em sua comunidade de humilhação e degradação sexual.

Uma pena, contudo, que somente seja possível assistir ao documentário no pouco difundido Lifetime Play, disponível apenas para algumas operadoras, e com uma dublagem que parece aquela do Jefferson. Surviving R. Kelly deve entrar em algum momento na Netflix (já existe uma página dedicada ao título) e questionamos ao canal sobre as possibilidades de conferir a minissérie e quando a parte II estreará no Brasil.

Após o documentário, R. Kelly sentou-se com a repórter Gayle King da CBS News e deu uma entrevista completamente descontrolado, assista:

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