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Por: Bruno Carvalho

Reality Z: uma das piores séries que já assisti

Foi doído acompanhar os 10 episódios de Reality Z, nova série nacional da Netflix, mesmo pra quem, como eu, já tive a minha dose de séries ruins nesses 15 anos no ramo. Anunciada com certa pompa e direito até mesmo à presença do CCO da empresa Ted Sarandos no país para o lançamento, esta adaptação da série Dead Set, dos criadores de Black Mirror, é um a das maiores bombas que vi na TV em muito tempo.

A trama segue, em seus cinco primeiros capítulos, basicamente os mesmos passos da original: um reality-show famoso é interrompido pela eclosão de um apocalipse zumbi e o caos toma conta do estúdio e arredores, mas trocando Borehamhood pelo Rio de Janeiro. Já em sua metade final, a adaptação brasileira segue com pernas próprias, trocando no processo todo o elenco e tentando dar um passo muito maior que a perna.

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O grande problema de Reality Z, contudo, não está em sua premissa, que é ótima. Sua maior falha reside na incapacidade dos realizadores, encabeçados pelo diretor e cineasta Cláudio Torres (Magnífica 70), em conceber uma história minimamente coerente dentro do próprio universo, bem como de atualizar uma série semi-independente de 2008 para os dias atuais, adotando no processo escolhas bastante questionáveis (a começar pelo tal reality com temática romana, o Olimpo. Quando se despede da trama da original, resolve transformar toda a trama, em cinco episódios, num drama sobre a “construção de uma nova sociedade” dentro de um estúdio de TV.

Os personagens vistos tanto no tal programa de TV quanto na própria série não passam de clichês ambulantes e sem motivações próprias, que limitam-se a agir ou reagir à revelia do fraco texto. Não raro todos eles tomam, num breve espaço narrativo, atitudes contraditórias e sem ancoragem com o que acabamos de ver apenas para manter a ação ativa. Isso acontece desde a (primeira) protagonista Nina (Anna Hartmann) – que percorre os episódios que encabeça sem ter um arco relevante – até o caricata e desprezível “vilão” Brandão (Guilherme Weber), cada um atuando em um tom diametralmente diferente que vão da introspecção profunda ao exagero nonsense, denotando aí uma falta de apuro dos preparadores de elenco.

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Aliás, existem bons atores aí nesta atração, que são completamente desperdiçados ao longo dos episódios por serem mantidos presos dentro de um repetitivo loop de acontecimentos, à exemplo de João Pedro Zappa (Santos Dumont), Emílio de Melo (Psi), Luellem de Castro (Malhação: Seu Lugar no Mundo) e tantos outros (nem cito aí Sabrina Sato, pois ela claramente não é uma atriz e estava aí apenas para servir de isca a um público inadvertido). Pra piorar, tematicamente a série perde todas as oportunidades de criar qualquer discussão interessante com os vários subtextos que possui (como uma eventual crítica à cultura de reality-shows, por exemplo) ou de realizar comentários sociais, que são profundamente inerente ao gênero zumbi (que até mesmo comédias como a ótima Zumbilândia o fazem de forma infinitamente mais competente).

Tecnicamente, contudo, Reality Z até apresenta bons momentos, como a maquiagem, os efeitos visuais e práticos e a direção de arte, mas que ficam diluídos e perdem força pela montagem pífia (que salta entre cenas de forma aleatória e um excesso do efeito “câmera na mão” para tentar emular urgência em tudo) e uma falta patente de refinamento no roteiro, que mais se preocupa em criar uma infinidade de gags que logo soam desinteressantes e gratuitas.

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Apesar de abraçar o gore e o trash, Reality Z acaba prestando um enorme desserviço a estes estilos cinematográficos em vez de celebrá-los, tal qual o faz com o gênero “zumbi”. Em muitas vezes me pegava tentando entender como isso chegou a ir ao ar, passando por tantos níveis de aprovação dentro de uma multinacional, já que é inconcebível que uma produção com tantos furos, falhas e de tão baixo gosto em todos os sentido tenha simplesmente sido aprovada sem que fossem realizados ajustes severos.

Existia uma boa série dentro de Reality Z, como a própria Dead Set provou, mas não conseguiram extraí-la, mesmo com tanto investimento claramente feito, a tempo de chegar em nossos lares.

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