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Por: Bruno Carvalho

Space Force tinha tudo pra ser boa, mas não é

Quando você junta o talento de Steve Carell (The Office, The Morning Show) com a mente criativa de Greg Daniels (The Office, Parks and Recreation, Upload) e um elenco primoroso que conta como nomes como John Malkovich (Billions), Lisa Kudrow (Friends, The Comeback), Ben Schwartz (BoJack Horseman), Noah Emmerich (The Americans), Fred Willard (Modern Family), Jane Lynch (The Marvelous Ms. Maisel) e tantos outros num comédia satírica sobre a (existente) Força Espacial dos EUA, era de se esperar, no mínimo, algo muito bom.

Mas infelizmente não é isso que ocorre com Space Force. A comédia que chegou na Netflix semana passada carregada com tanto talento revelou-se uma série dispersa e que, no máximo, te faz rir com o canto da boca em alguns momentos. Não, não era necessário reprisar o feito de The Office, pois o time criativo já se mostrou capaz de levar para a TV ótimas comédias (Parks and Rec) e ideias (como a recente Upload).

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Aqui acompanhamos o dia a dia da criação da tal Força Espacial, uma divisão militar do governo focada na proteção do espaço, liderada pelo general Mark Naird (Carell, que está apenas OK no papel) e que, graças a incompetência patente de uma administração composta pelos tipos mais atrapalhados (que fica apenas numa mera e evasiva alusão ao governo Trump), tinha tudo pra dar errado. Após um piloto que me animou – afinal esta é uma sitcom sobre ambiente de trabalho com um twist interessante – os capítulos seguintes logo colocaram um banho de água fria na minha empolgação.

Em seus 10 episódios, a série não sabe em que focar: se nos feitos destrambelhados da missão de retornar com as “botas americanas à Lua” em tempo recorde, na desinteressante família de Naird (em especial os white people problems de sua filha Erin), na pseudo “guerra-espacial” com a China, na vida amorosa do protagonista ou em situações que são pequenas e que constantemente tiram o foco da trama principal.

Apesar de ter seus méritos e boas gags isoladas aqui e ali, como o experimento com animais no espaço (que logo se torna absurdo) ou o fato de jamais explicarem o motivo da esposa de Naird estar presa (que mais à frente se torna cansativo e repetitivo), Space Force peca justamente pelo roteiro de Daniels e Carell não saber o que fazer com o potencial da premissa criada, não sabendo encontrar um ponto de equilíbrio entre o humor nonsense e a verossimilhança (justamente o ponto alto das atrações anteriores de Daniels).

Assim, não raro a comédia apresenta episódios que não acrescentam em nada e só servem para tomar tempo de tela até que, milagrosamente, a tal missão espacial precisa ser realizada de um dia pro outro por conta da pressão do presidente e dos rivais chineses. Pior, a atração é ainda capaz de desperdiçar ótimos personagens como o cientista Dr. Adrian Mallory (Malkovich) e o “especialista” em mídias sociais Tony Scarapiducci (Schwartz), que rapidamente soam aborrecidos e repetitivos.

Além disso, a série pouco faz para as personagens femininas que somente aqui e ali ganham rápido destaque até serem esquecidas pela trama, tal qual Naird fez com o atendente da loja de conveniência (e que a série faz questão de deixar bastante claro no capítulo final com um pôster constantemente focalizado, em vez de tratar como um mero easter egg).

O resultado é que Space Force é uma comédia sem identidade, roteirizada de forma preguiçosa e que constantemente empurra para frente o clímax das piadas até que ele nunca chega. Ela tinha tudo, absolutamente tudo pra ser uma grande adição ao catálogo da Netflix (ainda mais em tempos de pandemia), mas é apenas uma estreia boba e tão sem propósito quanto a própria agência espacial que parodia.

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